A associação entre solidão, isolamento social e inflamação

A associação entre solidão, isolamento social e inflamação: Uma revisão sistemática e meta-análise

Muito se fala sobre solidão e isolamento social. Fenómenos já de si preocupantes antes da pandemia, mas seguramente agudizados por esta.

Lembrei de partilhar as ideias que os autores do artigo em referência no final deste texto divulgam, relativamente à relação entre solidão, isolamento social e inflamação.

Não sendo um estudo experimental, acaba por ser mais que isso! Avalia uma série de estudos sobre a matéria, devolvendo-nos algumas luzes e também, mais algumas dúvidas.

Se se interessa por este tema, avance na leitura das 14 mensagens que considerei interessante destacar, convidando-o/a sempre para a leitura da publicação, na íntegra!

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Definição de solidão e isolamento social

1.A Solidão é definida como sendo um sentimento que a pessoa vive, o de estar desligado dos outros. Decorre da diferença percebida, entre o desejo de estabelecer relações e a qualidade das relações efetivamente estabelecidas. O isolamento social é descrito como um estado objetivo de estar isolado de outras pessoas, havendo barreiras visíveis que dificultam ou impedem o contacto com os outros (pessoas que fazem parte da rede social e | ou comunidade);

Evidência científica até ao momento

2.Investigação prévia tem sugerido a solidão e isolamento social, como importantes fatores de risco que contribuem para o desenvolvimento de algumas patologias, como: doença cardíaca, acidente vascular cerebral, demência e até mesmo, mortalidade precoce;

3.É importante compreender como é que a solidão e isolamento social influenciam as respostas fisiológicas que dão lugar à doença. Sendo a inflamação, uma dessas respostas, será de valor avaliar, as associações que se estabelecem entre solidão e inflamação, bem como, isolamento social e inflamação;

4.A inflamação é uma resposta biológica do organismo que ativa a produção de substâncias facilitadoras da superação face à “ameaça” (ex: lesão dos tecidos, infeção…). Esta resposta biológica, também é estimulada na presença de fatores de stress de origem social;

5.Considerando uma perspetiva evolutiva, os autores sublinham a tese de que a resposta inflamatória, configura fator relevante na sobrevivência dos organismos. Explicável, porquanto pessoas sozinhas e | ou isoladas, representam presas mais fáceis a ataques e | ou ferimentos, do que quando acompanhadas e integradas num ambiente protetor. Assim, a resposta inflamatória, ao ser desencadeada nas situações em que se está sozinho e | ou isolado, é também a expressão de um mecanismo biológico de proteção, preparando o organismo a reagir à ameaça;

5.Investigação recente referenciada pelos autores, sugere que a integração social e elevados níveis de apoio social, reduzem a inflamação, pelo que pode ser hipotetizado que indicadores de fraca integração social, conduzem a um aumento daqueles níveis;

Marcadores biológicos de inflamação

6.Os marcadores biológicos de inflamação que se creem mais impactados pela solidão e isolamento e que contribuem para o desenvolvimento das doenças atrás assinaladas, são as citocinas, quimiocinas e proteínas de fase aguda;

Propósito da revisão sistemática e meta-análise dos autores

7.Como não existia uma revisão sistemática da literatura que investigasse a relação entre a vivência de solidão ou isolamento social, com o aumento da expressão inflamatória, os autores decidiram levá-la a cabo, dando origem ao artigo em referência que me motivou a elaborar o presente texto. Propuseram-se então, aos seguintes objetivos: i) avaliar a associação entre solidão, citocinas, quimiocinas e proteínas de fase aguda;  ii) avaliar a associação entre isolamento social com citocinas, quimiocinas e proteínas de fase aguda, em adultos com mais de 16 anos. Um outro objetivo, foi o de apreciar a qualidade dos métodos e metodologias usadas nos estudos integrados na revisão que efetuaram;

8.Tendo em conta os critérios estabelecidos (qualidade da amostra, medidas de solidão, isolamento e resposta inflamatória…), os autores integraram 14 estudos sobre solidão e 16, sobre isolamento social;

Algumas considerações metodológicas

9.Os marcadores da resposta inflamatória avaliados, tanto nos estudos da solidão como nos de isolamento, foram: proteína C reativa, fibrinogénio, Interleucina 6, e a albumina (esta última, só nos estudos de associação do isolamento social com inflamação).

Nos 30 estudos incluídos na revisão, os autores informam em detalhe, as diferenças metodológicas usadas para medir solidão, isolamento, bem como, a diversidade de critérios para a recolha de amostras de sangue e análises estatísticas. Esta diferença de metodologias, referem, interfere naturalmente com as conclusões desta revisão, pois dificultam a comparação face à heterogeneidade encontrada…por exemplo: na recolha de sangue, em alguns estudos, foi proibido o envolvimento dos participantes em atividades que afetavam os níveis de inflamação, antes da recolha, como por exemplo, beber café e realizar exercício físico. Outros, limitavam a recolha às alturas de jejum e outros ainda, nem faziam menção sobre altura e aspetos que caracterizavam o procedimento. Para o isolamento social, também foi encontrada heterogeneidade. Alguns estudos mediam a fraca integração social dos participantes, e outros, o isolamento social efetivo;

Afinal, a solidão, implica inflamação?

10.Esta revisão sugere que existe uma associação entre a solidão e o marcador inflamatório interleucina 6. Não encontraram associação entre solidão e proteína C reativa ou fibrinogénio. Discutem este resultado à luz dos argumentos:

  • A solidão não influencia diretamente o sistema imunitário. Pode todavia, moderar a resposta aos fatores de stress biológico (ex: endotoxina) e social;
  • A relação da pessoa com a sua solidão, também pode influenciar a sua resposta inflamatória. Para algumas pessoas, a solidão pode ser um sentimento pontual, enquanto que para outros, um sentimento vivido de cronicidade;
  • Sabe-se que o stress pontual, prepara o organismo para reagir e encontra-se associado ao incremento do nível de interleucinas. Ao contrário, o stress crónico, interfere na desregulação do eixo HPA e nos néveis elevados de proteína C reativa;
  • Para uns, a solidão pode ser transformadora e percebida como uma alavanca para o conhecimento de outros e estabelecimento de novas relações. Para outros, pode significar exatamente o contrário;
  • A solidão também pode ser a consequência e não a causa da inflamação. Alguns eventos stressantes (ex: luto, doença crónica, depressão) que podem conduzir à solidão, implicam um aumento da inflamação. É, portanto, provável que a solidão per si não cause inflamação, mas sejam os fatores de risco para o desenvolvimento do sentimento de solidão que causem inflamação ou então e ainda, pode ser a interação da solidão com outros fatores de risco stressantes que conduzem à ativação do sistema imunitário. Os autores apelam para mais estudos longitudinais que estabeleçam a relação entre solidão, fatores de stress psicossocial e inflamação…para melhor compreender se a solidão prediz ou reforça a inflamação;

Afinal, o isolamento social, implica inflamação?

11.Os resultados desta revisão sugerem que o isolamento social está associado ao aumento de proteína C reativa e fibrinogénio;

12.Há muito que o isolamento social tem vindo a ser considerado, um forte stressor social e com potencial para aumentar o risco de desenvolver doença crónica e causar mortalidade precoce. O reconhecimento dos humanos, como espécies sociais, faz-nos compreender o impacto negativo da falta de laços, no nosso bem estar biológico, psicológico e social;

13.Embora descobertas curiosas e documentadas nos permitam dizer que é possível existir diferenças entre homens e mulheres, serão necessários mais estudos que o confirmem. Os homens ativam mais o eixo HPA na resposta ao stress, o que pode conduzir a níveis maiores de inflamação (fight | flight | freeze stress response).  As mulheres, tendem a cuidar e aproximar-se mais dos outros (tend and befriend stress response). Mas nesta revisão, não se encontrou associação entre sexo e inflamação. Isto sugere que talvez não haja relação direta entre isolamento social e inflamação nos homens e que a mesma, pode ser explicada pela vivência de depressão por parte daqueles. A depressão resulta de pequenos mas significativos aumentos de citocinas na circulação que por sua vez, conduzem a alguns sintomas como anedonia, fadiga, dificuldades no sono, instabilidade no humor, isolamento social…por esta razão, alguns investigadores sugerem que a inflamação pode aumentar a nossa sensibilidade para sinais sociais que ampliem o nosso desejo de estar com outros, para nos auxiliarem nos processos de cura, conduzindo possivelmente, à intensificação do sentimento de solidão;

14.Solidão e isolamento, não sendo a causa da inflamação, podem ser efetivamente, a consequência e esta direção oposta da relação, deverá ser estudada em trabalhos futuros.

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Palavras chave: solidão, isolamento social, proteína C reativa, inflamação, interleucina 6, fibrinogénio, albumina, stress, pandemia

Smith, K. J., Gavey, S., Riddell, N. E., Kontar, P. (2020). The association between loneliness, social isolation and inflammation: A systematic review and meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews 112: 519-541. Doi: https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2020.02.002

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