A pessoa Auguste Deter...para além da demência?

Seremos o doente, ou seremos a pessoa com doença? Sendo importante para o ser humano criar categorias por uma série de razões, é também, um dos aspetos mais humanizantes do homem, conseguir descobrir a unicidade para além das categorias…

Partilho as ideias core do artigo “Auguste D: One hundred years on: ‘The person’ not ‘the case’”, porque ainda percebo as suas mensagens válidas na atualidade. Embora a madraça dos cuidados no início do séc. XX fosse diversa daquela que é defendida atualmente, acredito que em muitos lares ilegais e muitas outras respostas …pouco ou nada mudou...

Neste artigo, publicado em 2006, os autores Page e Fletcher, reconstroem a história da mulher para além da descrição clínica da sua doença pelo Dr. Alois Alzheimer. Buscam em diversas fontes, fragmentos da vida de Auguste Deter e procuram ir além. Os autores cumprem esta missão de busca da pessoa Auguste, pois consideravam que após 1906, ano da sua morte, ocorreram muitas abordagens relativas à doença e parcas, sobre a pessoa.

Nesta conformidade, extrairei somente 16 ideias do artigo relativas à Sra. Deter, convidando o leitor para o conhecimento integral do artigo que dá origem ao texto presente.

16 particularidades na vida da Sra. Auguste Deter

1.Em novembro de 1901, uma mulher alemã com 51 anos foi admitida no hospital para doenças mentais. Nunca mais de lá saiu, morrendo em 1906. O seu caso clínico descrito e apresentado pelo Dr. Alois Alzheimer é universalmente aceite como sendo a primeira descrição da doença que mais tarde tem o seu nome. Sobre a história de Auguste Deter sabe-se muito pouco…sabe-se porém, da sua doença, deficits, perturbações do comportamento, neuropatologia,…os autores pretendem recrutar pedaços de história de Auguste, oferecendo-lhe um enquadramento apropriado ao de uma mulher da Alemanha Imperial no final do séc. XIX;

2. Auguste nasceu em 16 de maio de 1850, na cidade de Cassel, no centro da Alemanha. No final do séc. XIX, a cidade vivia mudanças económicas e sociais substantivas, transformando-se a sua sociedade agrária, numa industrial, com o respetivo acompanhamento da conversão das suas forças de trabalho;

3.Cassel foi praticamente destruída em 1943 e pouca informação restou sobre a história social de Auguste, alcançando-se, todavia, a informação de que o seu pai morreu jovem, teve três irmãos e passou a sua infância na cidade em que nasceu;

4.Com a industrialização, sugere-se que os cuidados parentais se alteraram para pior, representando os filhos na altura, um conjunto de braços, apropriados para trabalhar e participar nas rendas das famílias. As crianças eram assim, consideradas adultos em ponto pequeno;

5.Auguste foi educada na escola e curiosamente foi aluna do avô do Dr. Alois Alzheimer. Era alfabetizada e mais tarde na vida, conseguiu realizar testes simples de matemática propostos por Alzheimer. Não frequentou o ensino superior nem outras aprendizagens formais adicionais e neste aspeto, não foi a única. Na ocasião, ao atingir-se os oito anos de idade, as crianças das classes trabalhadoras, iam para a labuta, pelo que se estudassem, faziam-no após a jorna, já cansadas. As filhas meninas, ocupavam-se dentro das casas, ajudando nas tarefas domésticas e sob a alçada de um conjunto de regras muito apertadas, sobretudo no seio das famílias protestantes (era o caso da família de Auguste);

6.As diferenças de género eram bastante evidentes, prevalecendo o posicionamento do homem sobre o da mulher. Os homens eram vistos como mais competentes e independentes e as mulheres, mais dependentes e ajustadas às filigranas dos afetos. Estes estereótipos permaneceram até 1945, assumindo a mulher, as atividades relacionadas com as crianças, a igreja e a cozinha. As filhas, trabalhavam geralmente até casar. Aos 14 anos, Auguste começou a trabalhar a tempo inteiro. Naquele tempo, as ocupações mais prováveis seriam as de servir na casa de uma família de classe média ou como ajudante de costureira…sendo que a carreira mais honrosa para a mulher da classe trabalhadora, era o casamento. Auguste casou-se aos 23 anos com Karl, mudando-se seguidamente para Frankfurt, onde viveu os anos seguintes da sua vida.

7.É provável que o marido tivesse sido um funcionário dos caminhos de ferro

8.É natural que Auguste tenha vivido sob a influência das crenças vigentes sobre o papel da mulher na sociedade, cujas atividades primordiais se resumiam a casar, ter filhos, educá-los, manter a casa organizada e limpa, ser obediente ao seu marido. Auguste teve uma filha, Thekla e foi casada por 33 anos. O marido referiu-se ao casamento como sendo feliz e harmonioso e à sua mulher, como sendo bastante amigável, trabalhadora e organizada.

9.Na primavera de 1901, Karl começa a ficar preocupado com as alterações de Auguste. Esta, começava a: i)suspeitar que o marido se relacionava com uma vizinha, ii)desleixar-se nas lides da casa, iii)esconder objetos pela casa e iv)cometer erros na cozinha. Em poucos meses a inquietude de Auguste aumentou, ao ponto de perturbar os vizinhos, batendo-lhes à porta e tocando às campainhas, expressando receios e ideias paranoides sobre e para com outros. Se passou toda a sua vida a corresponder com o comportamento convencional, agora, desafiava qualquer expectativa de auto disciplina, trabalho árduo, decência, organização e obediência;

10.Em novembro de 1901, num momento de crise, pediram apoio junto do médico de família e no dia 26 novembro de 1901, Auguste é admitida no asilo municipal para pessoas com epilepsia e alienados. Este asilo, no séc. XVIII, adquiriu o nome de Castelo, por ser uma estrutura imensa, fortemente marcada pelo estilo gótico;

11.O Dr. Alois Alzheimer e o seu colega Emil Sioli, esforçavam-se por estudar cientificamente a doença mental severa e os cuidados compassivos para os que eram atingidos por aquela. Eles limitaram o uso dos quartos de isolamento e das camisas de força, pretendendo plasmar na prática, as alterações que a psiquiatria começava a propor na área do cuidado;

12.O Dr. Nitsche fez a sua admissão e reportou a boa condição física, embora Auguste apresentasse baixo peso, provavelmente por viver oito meses em agitação continuada. As descrições ainda sugerem que a Sra. Deter era uma mulher alta, com um cabelo longo e castanho como os seus olhos e uns dedos longos de elegância. Todavia, as únicas imagens de Auguste, são fotos capturadas no asilo por volta de 1902, em que parece suja e triste devido à qualidade fotográfica, vestindo uma camisa de noite, ao invés de um vestido modesto mais apropriado;

13.Nos meses seguintes, praticamente não se libertou do medo e agitação. Os períodos de serenidade eram raros. Durante do dia, passava longos períodos no banho pois acreditava-se que os banhos longos reduziam a agitação e apesar das restrições do uso, passava a maior parte das noites num quarto, em isolamento;

14.Karl teve problemas financeiros que se projetavam nas dificuldades em pagar os “cuidados” prestados pelo asilo. Karl não tinha de apoiar a mulher, pois na época, era legalmente facilitado o divórcio quando um dos elementos do casal era acometido de doença mental. Contudo, Karl continuou a lutar para pagar as contribuições e visitava frequentemente a mulher, demonstrando o seu afeto e o forte desejo de se manter ao seu lado…o quadro de Auguste foi piorando francamente, culminando com a sua morte em 1906;

15. Com a morte da Sra. Deter, a atenção passa a estar focada no seu cérebro. A descrição do tecido cerebral e detalhes da patologia, tornaram-se centrais para a definição da doença de Alzheimer. Parece que foi prestada mais atenção a Auguste, após a sua morte, mais que na sua vida, cujo valor como pessoa, não foi particularmente acolhido;

16.Tendo os nossos olhos abertos para uma nova madraça de cuidados na demência, podemos olhar para trás e perceber que Auguste, foi vitima de uma cultura “velha” de cuidados, ou melhor, de descuidados: deixa de haver pessoa quando há doença.

Palavras chave: Alzheimer; Auguste Deter; Doença de Alzheimer; Personhood; A pessoa para além da doença.

Page, S., Fletcher, T. (2006). Auguste D: One hundred years on: ‘The person’ not ‘the case’. Dementia 5 (4), 571–583.