As mentiras terapêuticas na comunicação com pessoas que vivem com demência

Embora não defenda de todo, a aplicação da mentira terapêutica, pois reconheço outros meios de comunicação que a excluem e são muito úteis para quem cuida, considerei importante trazer esta abordagem aqui...pois se serviu para a minha reflexão, poderá servir para a vossa!

Não consigo conceber o casamento de ética com mentira. Não consigo conceber comunicação centrada na pessoa quando minto e portanto, adoto é a minha perspetiva e não a do outro.

Passo então à síntese do estudo dos autores e as referências, no fim do texto, para quem tiver oportunidade de o ler na íntegra.

Para quê um estudo sobre mentiras terapêuticas:
O estudo avalia: i) a perspetiva de clínicos, sobre o uso da mentira terapêutica na sua prática diária e ii) qual o seu papel, em encorajar o uso apropriado desta estratégia de comunicação para com as pessoas que vivem com demência.

Quais os pressupostos?
Estima-se que mais de 90% das pessoas com demência, desenvolvem pelo menos um comportamento desafiante (Behaviour that challenges - BtC), no curso das suas vidas com a doença;

Em instituições que cuidam, a prevalência de BtC é de 78% e muitos destes comportamentos ocorrem durante o ato de cuidar;

Nas interações de cuidado, torna-se necessário “negociar” quando aqueles comportamentos emergem. Por um lado, para fazer parar um comportamento inapropriado e que impede o bom cuidado e por outro, facilitar o aparecimento de comportamentos favoráveis àquele;

Estas negociações e a habilidade para as levar a cabo, tornam-se úteis em diversas tarefas como as de levantar a pessoa de manhã, apoiá-la na higiene e autocuidado, na medicação, no impedir a sua saída dos edifícios etc…

As mentiras terapêuticas são frequentemente usadas como estratégia de comunicação, quando as pessoas com demência não partilham a mesma realidade dos cuidadores;

O seu uso é complexo, controverso e inúmeros protocolos têm vindo a ser criados para orientar o seu uso;

As orientações de boas práticas de comunicação, indicam o caminho da abordagem centrada na pessoa e no dever de quem cuida, em procurar entender a perspetiva da pessoa com demência;

Os autores enfatizam no entanto, a dificuldade em fazer colaborar, pessoas que acreditam estar em tempos diferentes do tempo dos cuidadores. Dão o exemplo de uma senhora que acreditava estar nos seus trinta anos e que precisava de ir buscar os seus filhos à escola. Ficava muito ansiosa por não poder sair do edifício e a estratégia que funcionava melhor era a de lhe dizer que a irmã, os ia buscar. Após esta mentira terapêutica, a senhora acalmava-se e nem era necessário adotar uma outra estratégia mais medicamentosa;

A pergunta que os autores colocam e muito bem (acrescento eu!) é se é ético fazê-lo!? Utilizar uma estratégia de comunicação que integra claramente uma mentira?

As mentiras terapêuticas são usadas por cerca de 90% dos cuidadores em instituições de cuidado;

Apesar das recomendações serem claras relativamente a este ponto e excluírem, portanto, a mentira, na verdade e na prática, os profissionais de saúde estão preparados para aplicar a mentira terapêutica e os autores consideram que se esta mentira é de facto uma estratégia ajustada, então que seja feita de uma forma ética e contemplando uma abordagem centrada na pessoa.

Como foi feito?
Foi implementado, um dia  (workshop) de formação sobre comunicação com a pessoa com demência, integrando nessa formação, os aspetos comportamentais mais desafiantes (BtC);

Os participantes, na maioria, psicólogos, responderam a dois questionários. Um, antes do treino e outro, após; As questões eram as seguintes: Já mentiu a uma pessoa que vive com demência? Mentir, ajuda? Os psicólogos desempenham um papel importante na transmissão aos outros, de como mentir eficazmente?...havia ainda espaço para comentários e apreciação da formação no questionário aplicado, posteriormente ao momento pedagógico.

Quais os resultados e que conclusões tirar?
Os psicólogos envolvidos reconheceram que utilizam mais do que pensavam, a mentira terapêutica e mostraram-se mais aderentes em investir num papel de apoio aos outros, no como mentir mais eficazmente;

Consideram que é importante ter diretrizes mais claras sobre o âmbito da mentira terapêutica.

Palavras chave: Problemas de comunicação; demência; cuidadores; mentira terapêutica; verdade; abordagem centrada na pessoa

James I. A., Caiazza R. (2018) Therapeutic Lies in Dementia Care: Should Psychologists Teach Others to be Person-Centred Liars? Behavioural and Cognitive Psychotherapy 46: 454-462. DOI: https://doi.org/10.1017/S1352465818000152