Comportamentos no cuidado à pessoa com demência

Sabemos que o número de pessoas a viver com demência tem vindo a aumentar e afeta atualmente, no mundo, cerca de 47 milhões de pessoas. Estima-se que em 2050, este valor esteja triplicado. Após o diagnóstico, pode viver-se mais 10 a 15 anos. A questão que nos fez trazer-vos o artigo em referência é exatamente a qualidade da vida vivida nestes 10-15 anos.


Como se facilita a expressão de cada um dos indivíduos que vive com processo demencial, tendo em conta uma ideia tão antiga e tão atual que nos ensina a dar importância à doença que a pessoa tem e à pessoa que tem a doença, não dissociando uma da outra.


Assim, no enquadramento dos modelos humanizados do cuidado implementados em países ditos desenvolvidos, são descritos comportamentos por parte de quem cuida (maioritariamente no contexto institucional de cuidado ao sénior) que são facilitadores da expressão da pessoa que vive com demência.

Conhecemos muitos mais, mas nesta síntese, faremos unicamente referência aos da publicação que sugerimos, cuja referência se encontra no fim deste texto.


No modelo de cuidado humanizado (os autores centram-se no modelo do Cuidado Centrado na Pessoa), há fatores determinantes a considerar, sendo os relacionais, fortemente sublinhados:


1.Fator relativo à Estrutura organizativa e que contempla:
Liderança com valores muito claros, preocupada e ocupada com a qualidade das relações estabelecidas entre cuidadores e pessoas que precisam do cuidado, com o bem-estar e satisfação daqueles que cuidam, com uma cultura de qualidade no cuidado e com os recursos necessários para prestá-la;


Competência dos profissionais, com formação, experiência e com a criação de oportunidades de reflexão…tempo para pensar no que se faz, como, quando, a quem, com que resultado;


Ambiente físico, adequando o contexto, ao bem-estar daqueles que cuidam e das pessoas que precisam do cuidado (boa localização, facilidade de acessos, arquitetura amigável para as pessoas que vivem com demência, atrativo e com sinaléticas que reduzam a incerteza, facilitador de encontros e interações positivas);


2.Fator relativo ao Processo de cuidado na demência, integra:
Conhecimento sobre a pessoa que tem demência, favorecendo um cuidado de qualidade e interações enriquecidas. Para tal, a instituição de procedimentos que se preocupem com a recolha de informação sobre saúde física, mental, cultural, valores, biografia, personalidade, preferências e necessidades. Conhecimento sobre estímulos que podem ser promotores de agitação ou apatia nas diversas fases de vida da pessoa.


Esta informação basilar pode ser adquirida através de conversas com a pessoa com demência, partilha entre cuidadores e pelos familiares, sendo os processos de interação no cuidado, pautados pelo: respeito pela pessoa com demência, atitude positiva para o encontro de oportunidades onde à partida se percebem desafios e limites, e a construção continuada de um ambiente rico, calmo.


3.Fator relativo aos Resultados esperados:
Bem-estar relacional | social, psicológico e físico é um resultado a ambicionar.


Alguns comportamentos dos cuidadores, foram sublinhados pelos autores na publicação em referência. Estes comportamentos visam colocar na prática, os 3 fatores descritos anteriormente:

  • Conhecer a pessoa com demência;
  • Estabelecimento de conversas, momentos prazerosos que abordam eventos passados para compreender as pessoas para além da sua demência e que poderá ser facilitado através da utilização de fotos, potenciando o vivificar de memórias. Quando a capacidade verbal se torna dificultada, os encontros sociais permanecem, sendo que a utilização da linguagem não verbal por parte de qualquer parceiro do cuidado se torna imprescindível (toque, vocalização, movimentos e o ritmo em que estes se desencadeiam…);
  • Mantêm as pessoas com demência felizes e satisfeitas;
  • Proporcionam-se interações que manifestam o interesse por parte do cuidador a encorajar as pessoas com demência a fazer coisas que gostam conseguindo rir em conjunto, observar e celebrar os esforços de forma genuína. O cuidador pode e deve expressar a sua própria satisfação na interação do cuidado;
Proporcionam um ambiente em que as pessoas com demência se sintam seguras e protegidas, ao:
  • Manter rotinas diárias;
  • Utilizar linguagem corporal, gestos, movimentos e o seu ritmo, tom de voz e expressões faciais que confortam a pessoa com demência;
  • Definir um período temporal para a atividades a desempenhar em grupo, que permitam que todos as possam completar aproximadamente ao mesmo tempo evitando deixar alguém para trás;
  • Conversar ou interagir com a pessoa que demonstre ansiedade, zanga ou preocupação procurando compreender a causa e facilitando a sua expressão;
  • Propor atividades com sentido e significado para ocupar e fazer viver o potencial da pessoa com demência, ajudando-a a praticá-lo. Atividades que podem passar pelo desenho, jogos, passeios, conversas ou simplesmente sentar ao lado (entre outras, desde que personalizadas);
  • Trabalhar em equipa, havendo a segurança psicológica por parte dos cuidadores, em pedir ajuda a outros colegas quando estão com dificuldade em lidar com desafios que que emergem na relação do cuidado;
  • Remover estímulos que causam desconforto à pessoa com demência que e podem passar por sombras, ruídos oriundos de várias fontes, objetos a mais, etc… que podem sobrecarregar a perceção da pessoa com demência;
  • Conduzir atividades de cuidado, uma de cada vez;
  • Não utilizar a contra-argumentação, confronto, nem o ignorar, perante uma pessoa com demência que possa viver um comportamento mais difícil de lidar para o cuidador;
  • Ajudar a pessoa com demência a focar-se na tarefa que tem em mãos, ficando ao lado dela e encorajando-a continuar;
  • Reconhecer precocemente os sinais de agitação para conseguir compreender a origem e proporcionar a ajuda necessária;
  • Escolher os alimentos que a pessoa com demência gosta e que possam ser comidos sem dificuldades;
  • Bater à porta antes de entrar no quarto, não falar com outros interlocutores enquanto se presta o cuidado, centrando a atenção na pessoa com demência…;
  • Integrar as capacidades da pessoa com demência na relação de cuidado, não fazendo por ela, aquilo que esta pode fazer mesmo que mais devagar, nem lhes pedir para realizar algo que esteja acima das suas possibilidades (ex: realizar várias perguntas em simultâneo, não esperar pela resposta que pode demorar um pouco mais, partilhar muitas opções (ou informação) de cada vez…).

Muitos mais comportamentos facilitadores da relação entre os parceiros no cuidado e a pessoa que vive com demência, podem ser listados e com resultados de bem-estar para ambos os lados da interação. Esses comportamentos alimentam-se de alguns princípios chave que nos fazem estar despertos, enquanto cuidamos, para:

  1. Um ambiento físico que acomode as perdas percetuais da pessoa com demência;
  2. Reconhecer que a comunicação permanece possível e que a emoção por detrás das palavras que falham é mais importante que as palavras em si, assumindo que a pessoa com demência continua a registar sentimentos;
  3. Reconhecer as competências que a pessoa com demência tem em qualquer fase da trajetória de progressão dentro de si;
  4. Entrar no mundo da pessoa com demência é mais fácil que realizar o contrário, juntando-nos ao tempo e espaço em que a pessoa está e encontrar alegria nisso;
  5. Enriquecer a vida da pessoa com demência, criando momentos de sucesso, aproveitando o que se conhece sobre a pessoa, rotinas passadas e competências atuais…utilizando o humor, não o confundindo com ironia e sarcasmo.

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Para a leitura completa do artigo, visite a referência.

Wu, Q., Qian, S., Deng, C., & Yu, P. (2020). Understanding Interactions Between Caregivers and Care Recipients in Person-Centered Dementia Care: A Rapid Review. Clinical interventions in aging15, 1637–1647. https://doi.org/10.2147/CIA.S255454

Palavras chave: cuidadores, parceiros de cuidado, pessoas com demência, institucionalização, cuidado centrado na pessoa, cuidado centrado na relação, interações, relações, idosos, seniores, satisfação


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