Comunicação quando não há palavras?

Comunicação com pessoas que vivem com demência que já não se expressam verbalmente. Uma proposta?
Este estudo é publicado em 2017 antes de sermos confrontados com a pandemia da Covid 19 (como a maior parte que sintetizei e vos trouxe até aqui)!. Vão observar que neste em particular, é aconselhada a proximidade, o toque…nada de novo…sabemos que são expressões humanizadas que comunicam, confortam, estimulam…! Todavia, apelo para a necessidade de proteção adicional decorrente das medidas de saúde estabelecidas relacionadas com o contágio pelo novo corona vírus na prática das linhas orientadoras desta investigação.

Qual a preocupação das autoras?
Erosão da rede de contactos puramente sociais dos idosos que vivem com demência no contexto institucional e que contribui para declínio acelerado das competências remanescentes;
Dificuldade de expressão destes idosos no recrutamento da satisfação das suas necessidades pois já não as verbalizam;
Dificuldade dos cuidadores profissionais em compreender as necessidades desta população de idosos em particular;
Cuidados centrados mais na tarefa, que na relação e pessoas.

Para quê, este estudo?
Verificar se uma estratégia de comunicação específica que facilita a aprendizagem de crianças com dificuldades de aprendizagem, pode ser também uma ferramenta de apoio aos cuidadores, no contacto social com as pessoas maiores que vivem demência e se encontram impossibilitados de falar.

Afinal o que é que os cuidadores profissionais passam a fazer de diferente no contacto com os idosos não verbais?
Apesar de vos recomendar ler o estudo na íntegra, em grosso modo, os cuidadores passam a aproveitar mais o comportamento comunicativo que o idoso ainda tem e a utilizá-lo quando interage com aquele, para iniciar um momento interativo sem palavras. A imitação é uma das componentes utilizada pelos cuidadores. Até mesmo o uso de vocalizações por parte dos idosos pode ter um eco no cuidador, para que se estabeleça o rapport inicial da comunicação.

O que se conseguiu de diferente com a alteração do comportamento do cuidador?
(A cuidadora neste caso é uma das investigadoras. É assumido pelas autoras que este é um ponto mais frágil no estudo).
Os idosos que participaram no estudo viram os seus comportamentos comunicativos a serem mais utilizados durante os minutos da interação, quando o cuidador optava pela estratégia de comunicação referida anteriormente (integrar no processo de comunicação, os comportamentos comunicativos dos idosos).
Os comportamentos comunicativos mais usados pelos idosos foram: - olhar direcionado para a face do agente de interação, sorrisos, vocalização e imitação do cuidador. Comportamentos estes que estão muitas vezes escondidos pelo seu oposto, olhar fixado, ausência de sorriso, silêncio…

A Humanização também é isto. Ajudar pessoas que têm dificuldade em fazer a ponte com o mundo exterior, a fazê-lo com os recursos que têm porque ainda os têm…às vezes com a correria, não nos damos conta!

Palavras chave: Comunicação; Não verbal; Demência; Institucionalização; Cuidadores profissionais; Comunicação humanizada; Dificuldades de comunicação na demência; Comunicação centrada na relação; Comunicação centrada na pessoa

Ellis M., Astell A. (2017) Communicating with people living with dementia who are nonverbal: The creation of Adaptive Interaction. PLoS ONE 12(8):e0180395.https://doi.org/ 10.1371/journal.pone.0180395