Cuidado Centrado na Relação?

Cuidado centrado na relação?

Na área do Cuidado, é natural ser premiado com dois conceitos: O do Cuidado Centrado na Pessoa (CCP) e o do Cuidado Centrado na Relação (CCR). O primeiro é associado à boa prática na prestação do Cuidado e o segundo, não é tão frequentemente pronunciado, embora relações de cuidado positivas, sejam basilares no processo e resultados do Cuidar.

Por esta razão, nesta síntese, farei foco ao CCR aflorado neste artigo e cujos autores o sinalizam como mais ajustado no ambiente de Cuidado. Apelarei todavia, à leitura do original na sua íntegra, para os mais interessados e cuja referência se encontra no final deste texto.

Negligenciarei propositadamente o Cuidado Centrado na Tarefa (CCT) pois a sua aplicação literal, tem conduzido à erosão do bem estar e saúde das diversas pessoas envolvidas no Cuidado.

Quando e como emergiu o Cuidado Centrado na Relação (CCR)?

1.Este conceito emerge na sequência da formação de um grupo de trabalho dedicado à reflexão sobre a melhoria dos cuidados de saúde nos Estados Unidos, na década de 90 do Séc. XX. Na altura, tanto os profissionais de saúde, como os utilizadores do sistema, mostravam um grande descontentamento pois aquele, não respondia às necessidades crescentes da população com doença crónica. O nome de CCR é cunhado por Carol Tresolini e Bew-Fetzer, ambos pertencentes ao grupo destacado;

2.O grupo e trabalho propõe então, um novo modelo de prestação dos cuidados de saúde que reflete a importância das interações entre as pessoas, como a base fundamental para o sucesso terapêutico e cura. Fundamentado pelo cruzamento de diversas áreas do saber, este modelo do CCR, integra e enfatiza a relevância dos vários níveis em que as relações ocorrem: i)pessoa com doença, ii)familiares, iii)profissionais de saúde e auxiliares e a iv)comunidade;

3.O CCR destaca a importância dos encontros no contexto de saúde. Cada participante na interação, faz interpretações e constrói um mundo subjetivo que é passível de ser modificado pelo diálogo. Os indivíduos, são transformados no decurso do processo dialógico, formando uma unidade inseparável de sujeitos interdependentes;

Investir na prestação de um Cuidado de qualidade é uma escolha, uma decisão?

4.Os autores do artigo agora em enfoque, relevam o contributo de Christopher P. Mulrooney, nos finais da década de 90, sublinhando que um dos pré requisitos para a prestação de um Cuidado de qualidade às pessoas maiores em contexto de vulnerabilidade é o de : Investir na prestação de Cuidado como uma Escolha. Pois o Cuidado de alta qualidade dirigido aos mais velhos é condicionado pela predisposição positiva face a esse mesmo Cuidado (tanto por parte dos profissionais como familiares), mas não só!

O valor da prestação do Cuidado aos mais velhos?

5.O trabalho de Cuidado às pessoas idosas está associado ao confronto com desafios muitos difíceis de superar, baixa remuneração, pouco estimulante, desenvolvido em ambientes estéreis e desinteressantes, com fracos recursos…no fundo, atrai pouco. Torna-se assim importante, atrair e reter profissionais qualificados.

O modelo do Cuidado Centrado na Relação poderá contribuir para a atração e retenção?

6.O modelo do cuidado centrado na relação ajuda a identificar, criar e manter, as condições para o exercício de um Cuidado positivo com as relações, considerando quem dá e quem recebe. É nesta conformidade que surge também, o Senses Framework, que oferece uma estrutura de trabalho que captura as dimensões de perceção e subjetivas do Cuidado Centrado nas Relações e reflete tanto os processos interpessoais, como os  intrapessoais. Ajuda a operacionalizar o CCR.

Em que se baseia o Senses Framework?

7.Parte da crença que todas as partes envolvidas no cuidado, os mais velhos, os cuidadores familiares, cuidadores profissionais, voluntários…, devem experimentar relações que promovam sentimentos de:

Segurança – sentir segurança dentro das relações (física, psicológica e existencial);

Pertença – sentir que mantem relacionamentos importantes e faz parte de um grupo ou comunidade que valoriza;

Continuidade – sentir que pode fazer ligações entre passado, presente e futuro e de experimentar um Cuidado consistente, prestado por pessoas familiares (conhecidas);

Propósito – sentir que pode envolver-se em atividades que valoriza na ocupação do seu tempo, fazendo algo com significado;

Realização – sentir que atinge objetivos |metas |etapas de valor e que os esforços são reconhecidos;

Im-portância – sentir se que “tu” e aquilo que "tu" fazes, im-porta aos que te são Im-portantes…é a essência da estrutura de trabalho Senses e é o que os participantes sentem como resultado do bom Cuidado. Não será só a pessoa maior dependente que se sente im-portante, mas todos os que participam direta e indiretamente, no Cuidado.

(nota pessoal extra o artigo base: separo propositadamente "im" de "porta", pois gostaria de exaltar  a etimologia da palavra que por vezes é banalizada. Trazer (porta) para dentro (im) o que é de valor.)

Como comportamentos geram os sentimentos do Senses Framework nos diferentes interatores do Cuidado?

8.Extraindo unicamente uma amostra que pode encontrar no quadro do artigo em referência, detalho o 1º sentimento – SEGURANÇA:

Para os seniors: É dada atenção às necessidades psicológicas e fisiológicas para que o sénior sinta segurança, livre de ameaças, dor, feridas, lesões, desconforto. Recebem um Cuidado, prestado com competência e sensibilidade;

Para os funcionários: Encontram-se livres de ameaça física, repreensão ou censura. Têm condições de segurança no emprego. Têm a suas necessidades emocionais reconhecidas e trabalham numa cultura apoiante e ao mesmo tempo, desafiante;

Cuidadores familiares: Sentem-se confiantes e com o conhecimento e informação necessários. Sentem-se capazes de proporcionar um bom Cuidado, sem ter de hipotecar o seu próprio bem estar. Têm uma rede de apoio que os ajuda quando precisam e de forma atempada. Sentem-se capazes de renunciar ao Cuidado, quando apropriado;

O que é que o Senses facilita, na perspetiva dos Cuidadores?

9.Os profissionais que cuidam de idosos acreditam que o Senses está implícito na sua filosofia de cuidado, mas o facto de a tornar explicita e transparente, ajuda na prática do Cuidar;

10.Facilita também, o superar de uma cultura de “apontar o dedo” para uma de “sinto-me bem sobre o que fazemos”;

11.O facto de se trabalhar com o foco numa relação positiva, aumenta o potencial terapêutico e  de outros indicadores subtis de sucesso na prestação de Cuidado;

12.Facilita o desenvolvimento de uma liderança forte, com visão e uma cultura de apoio em que os sucessos servem para ser celebrados e estimulados e os erros, reconhecidos como fontes de aprendizagem, superando as componentes destrutivas das relações que se baseiam no julgamento, crítica e acusação;

13.O Senses, oferece um caminho para a mudança da cultura de Cuidados.

Palavras chave: cuidado centrado na relação; cuidado centrado na pessoa; idosos; seniores; adultos maiores; dependência; demência; cultura de cuidados; cuidador informal; cuidador formal; profissionais de saúde; gerontologia; geriatria.

Nolan, M.R., Davies, S., Brown, J., Keady, J. (2004).  Beyond ‘person-centred’ care: a new vision for gerontological nursing. International Journal of Older People Nursing in association with Journal of Clinical Nursing 13, 3a, 45–53.