Cuidado Centrado na Relação em Saúde

O Cuidado Centrado na Relação!

Esta pequena perspetiva que sintetizo aqui, relaciona o modelo do Cuidado Centrado na Relação (CCR), com o contexto clínico. Trago-a aqui pois refere por múltiplas vezes a relevâcia do ser autêntico, conceito que abordarei em breve no blog opinião com o título de: "Mas afinal o que é ser autêntico".

Os autores sublinham a importância do CCR como modelo chave em contextos de saúde, pois toda a doença, cuidado e processos de recuperação, assentam sobre relações que são estabelecidas com o propósito, se não de curar, acolher e melhorar o bem-estar.

O CCR é um modelo de cuidado que propõe uma estrutura para a conceptualização dos cuidados de saúde. Este modelo reconhece o papel central da natureza e qualidade das relações desenvolvidas entre as diversas partes componentes do cuidado em saúde.

A prestação dos cuidados de saúde decorre da implementação de uma panóplia de atividades e desempenhos que se interdependem. Nas interfaces, encontram-se as relações que possibilitam a troca de informação, tomada de decisões sobre diagnósticos, a alocação de recursos, a escolha de tratamentos e monitorizam-se os resultados do cuidado. Estas relações são como que uma cola ténue que ligam a pessoa com doença, o médico e outros profissionais, equipas,  organizações e comunidade.

Princípios do CCR:

1.Integrar o processo de Personhood*, numa pragmática

As relações estabelecidas devem pautar-se pela autenticidade, tendo em conta os indivíduos, as PESSOAS por detrás do desempenho dos papeis de profissional, de doente (ou outro) e que interatuam no enquadramento dos cuidados.

* personhood pode ser visto como um processo de nos tornarmos únicos, através das diferentes vivências relacionais (com o mundo e outros) nas quais nos envolvemos e integramos. Vamos sendo vários únicos ao longo do tempo, através da constante de nos relacionarmos (personhood não se perde, mesmo perante a experiência de doença mental). Pelo que a morte social, cujas relações enferrujam e quebram, é já em si, uma forma de morte, uma forma de findar o processo de personhood.

2.Integrar o afeto e emoções

Em oposição ao distanciamento para um posicionamento mais neutral por parte do clínico, o CCR encoraja à empatia, pois esta é um catalisador da expressão da pessoa com doença, da sua experiência e emoções. Conteúdos estes que ajudam o médico na sua compreensão e no ampliar das possibilidades que servem as necessidades da pessoas com doença, melhorando a experiência de cuidado e respetivos resultados.

3.Acolher a influência mútua

Caminhar de um processo desnivelante de relação em que de um lado está o clínico que é o expert que influencia e do outro, a pessoa com doença que é influenciada, para um processo nivelante de influência bilateral. Os autores abordam o mútuo desenvolvimento das forças de carácter (coragem, paciência, temperança, etc…) de cada uma das partes envolvidas, quando as interações se traduzem na cooperação.

4.Radicar numa base moral

Não deixar que o desempenho de papeis e funções, esvazie de autenticidade as relações que se estabelecem. O fingimento de autenticidade não é autenticidade e a gratidão emerge da transparência.

Dimensões do CCR

5.Relação Clínico-Pessoa com doença

A qualidade da comunicação entre as partes não é resultado do esforço de uma só parte. É um processo interativo e dependente dos esforços de ambos. Como todos os processos, requer ajustes, ao longo do tempo de cuidado e dos eventos que o preenchem.

6.Relação Clínico-Clínico

A qualidade das relações entre pares, nomeadamente em contextos organizacionais hierarquizados, contribui para o seu bem-estar e para a saúde das pessoas doentes. Cultiva-se uma cultura de escuta recíproca, respeito pelos colegas, apreciação pelos contributos de colegas de outras especialidades| disciplinas, trabalho de equipa, inclusão das diferenças, aprender e celebrar com as realizações dos pares.

7.Relação Profissionais de Saúde-Comunidade

Desta relação, decorre a consciencialização sobre a importância dos contextos comunitários na vida dos indivíduos e de como dinâmicas locais, contribuem para a sua saúde e bem-estar. Esta consciencialização promove o diálogo e desenvolvimento das comunidades.

8.Relação do Clínico consigo próprio

Auto-consciencia, auto-conhecimento, capacidade para criar e conservar a integridade em ambientes complexos e incertos faz parte do foco da relação do clínico consigo próprio, num processo que não fará sozinho pois as relações com o outro facilitarão o incremento desta dimensão AUTO.

Trabalhar com o propósito claro de melhorar a saúde de um outro, requer resiliência e competência por parte do clínico e que se firmam na sua relação de bem estar em si, consigo.

9.O CCR é salutogénico.

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Palavras chave: cuidado centrado na relação, médicos, clínicos, profissionais de saúde, salutogénese

Beach, M., Inui, T. (2006). Relationship-centered Care: A Constructive Reframing. Journal of General Internal Medicine 21 (S1): S3-S8. Doi: https://doi.org/10.1111/j.1525-1497.2006.00302.x

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