Discurso de infantilização sim ou não?

Comunicação abebezada (infantilizada) com o sénior que vive com demência…qual o impacto?
Este estudo é publicado em 2008, mas o tema não deixa de ser atual. Em tempos de Covid 19, com todo o equipamento de proteção que torna quem cuida, um possível estranho, as palavras e as características da voz que as dizem, ainda têm mais importância.
Os autores referem que a resistência ao ato de cuidar é muito comum por parte dos adultos mais velhos que vivem com demência. Os comportamentos de resistência, perturbam os cuidados de enfermagem e facilitam o incremento de custos nos cuidados em cerca 30%. A infantilização, tipo de comunicação utilizada pelos cuidadores (neste caso, centra-se nos profissionais de enfermagem), pode ativar a resistência ao cuidado das pessoas que vivem com demência

Este estudo foi feito para quê?
Determinar a magnitude e direção dos efeitos da fala infantilizada, nos comportamentos das pessoas com demência.
Avaliar em que medida, a infantilização, pode confortar ou incitar comportamentos problemáticos

Porquê?
Sabe-se que os comportamentos problemáticos ocorrem em 75% a 90% de pessoas que vivem com demência  (ex: agredir, gritar, deambular…) e perturbam o ato de cuidar ao ponto de contribuírem para o stress, exaustão , rotatividade e aumento dos custos na prestação de cuidados
Afinal o que é o discurso abebezado (infantilizado)?
Este tipo de discurso, surge automaticamente numa conversa entre indivíduos de gerações diferentes e pode contribuir para a dissipação das diferenças percebidas pelos falantes…O discurso infantilizado, integra as seguintes componentes: vocabulário e construção gramatical simples, frases curtas, ritmo lento, sons mais agudos e altos e uso de termos mais íntimos e também, diminutivos
A fala infantilizada resulta de crenças que os adultos mais jovens projetam sobre os adultos mais velhos, revelando uma avaliação de fraca competência pelos primeiros, aos segundos.
A mensagem implícita de incompetência, veiculada pelo discurso infantilizado, dá inicio a uma espiral de reações negativas por parte dos idosos com demência , como por exemplo: auto-estima baixa, depressão e maior assunção de comportamentos dependentes

Como foi feita esta investigação?
Foram efetuadas gravações de vídeo sobre episódios de rotinas de cuidados, aos residentes de uma instituição.
Os sujeitos eram idosos com diagnóstico de demência.
Os comportamentos dos cuidadores foram codificados em categorias: utilização de discurso normal (como dirigimos o nosso discurso a um outro adulto), utilização de discurso infantilizado (como dirigimos o discurso a um bebé).
O comportamento dos idosos também foi previamente definido em duas classes: comportamento cooperativo ou resistente ao cuidado.
Foram testadas estatisticamente as relações estabelecidas entre a tipologia de comunicação dos profissionais que cuidam e o tipo de comportamento face ao ato de cuidar por parte dos residentes.

Resultados:
A probabilidade de ocorrer resistência ao ato de cuidar por parte do residente, varia, com a tipologia de comunicação utilizada pelo cuidador. A maior probabilidade de gerar resistência ocorreu com o uso do discurso infantilizado por parte do cuidador quando se comparou com o uso do discurso normal.
Ter consciência do uso de uma tipologia ou outra de comunicação por parte dos cuidadores é o primeiro passo para a mudança para um discurso normal, aumentando assim, só com uma mera medida de fala, a probabilidade do alvo do cuidado, acolher de forma mais fluida esse cuidado e cooperar, participar.
Também as características da nossa voz contribuem para uma comunicação mais humanizada. Humanizar, não significa diminuir.

Palavras chave: Cuidados na demência; Comunicação; Resistência ao cuidado; infantilização; Comportamentos problemáticos; Comunicação humanizada; Comunicação centrada na relação

Williams K., Herman R., Gajewski B. & Wilson K. (2008) Elderspeak Communication: Impact on Dementia Care. American Journal of Alzheimer’s Disease & Other Dementias 24 (1): 11-20.