Empatia e Burnout, duas irmãs inseparáveis?

No artigo Understanding the Links between Inferring Mental States, Empathy, and Burnout in Medical Contexts, os autores procuram esclarecer o papel da empatia no cuidado ao outro e os custos emocionais que este cuidado pode envolver.

Não só em alturas de pandemia, mas também, os profissionais de saúde lidam diariamente com o sofrimento que decorre de processos de doença, morte e dor. Esta realidade pode conduzir à fadiga por compaixão, burnout e angústia.

Os autores defendem que a investigação pode ajudar a melhorar a nossa compreensão sobre como desenvolver a empatia necessária ao cuidado de qualidade ao outro em vulnerabilidade, para atingir bons resultados e ao mesmo tempo, preservar o bem-estar pessoal do profissional de saúde.

Assim, levaram a cabo o estudo que motivou esta síntese e que analisa a relação entre 3 componentes da empatia, com a inferência de estados mentais dos doentes e as dimensões do burnout. A hipótese geral apoiava-se na premissa que a inferência de estados mentais nos doentes, gera consequências diversas ao nível do bem-estar dos profissionais de saúde, dependendo do tipo de componente empática que o profissional de saúde apresenta.

Para a aferição do tipo de empatia, apresentada pelos profissionais de saúde:

foi-lhes aplicada a escala Interpersonal Reactivity Index (IRI) que considera a empatia como um construto multidimensional e integra 4 subscalas. Os autores, utilizaram unicamente as seguintes 3, para prosseguir com esta avaliação:

  1. Angústia pessoal (empatia que responde às emoções do outro). Exemplo de items: "Fico apreensivo/a em situações de emergência"; "Fico tenso/a em situações de fortes emoções"; "Sinto-me indefeso/a numa situação emotiva"; etc…);
  1. Preocupação empática (empatia que responde às emoções do outro). Exemplo de items: "Sinto compaixão quando alguém é tratado injustamente"; "Incomodo-me com as coisas más que acontecem aos outros"; "Fico comovido com os problemas dos outros"; etc…);
  1. Tomada de perspetiva (empatia cognitiva). Exemplo de items: "Antes de tomar alguma decisão, procuro avaliar todas as perspetivas"; "Tento compreender o argumento dos outros"; "Imagino como as pessoas se sentem quando eu as critico"; "Coloco-me no lugar do outro, se me preocupo com ele"; etc…).

Relativamente à inferência dos estados mentais dos doentes, este estudo sugere que a mesma, conduz a efeitos positivos junto dos profissionais de saúde.

Estar consciente do estado mental do doente, dos seus pensamentos e sentimentos, não implica em custos pessoais. Ao contrário, aumenta a probabilidade de perceber significado e se sentir gratificado pelo trabalho realizado.

Estas orientações corroboram sugestões de literatura anterior, sugerindo que a inferência de estados mentais do doentes constitui uma estratégia do coping com consequências positivas para a relação médico doente e que pensar nos doentes como agentes sem mente não é uma estratégia efetiva para reduzir o risco de burnout nos profissionais de saúde.

Criando um enfoque nos resultados da relação entre as componentes da empatia, com a inferência de estados mentais dos doentes, verificou-se que a angústia pessoal, está relacionada com uma menor inferência dos estados mentais dos doentes e consequentemente, níveis aumentados de exaustão emocional (ex: sinto-me exausto/a…; Sinto-me de rastos…; Fico esgotado/a…; etc…);

Ao contrário, a tomada de perspetiva, parece aumentar a inferência dos estados mentais dos doentes resultando em efeitos positivos, como elevados níveis de eficácia profissional para os profissionais de saúde (ex: Consigo resolver, de forma eficaz,…; Acredito que participo, de forma positiva,...; Sinto-me estimulado/a quando alcanço os objetivos…; etc…).

Os resultados do presente estudo, apontam para consequências negativas da empatia que se circunscrevem a...

...um componente particular da empatia: a angústia pessoal.

Esta componente é focada na reação emocional do próprio profissional de saúde e não está relacionada com o que o doente pensa ou sente, uma vez que é a expressão do sofrimento do profissional de saúde relativamente a determinada situação. 

Os autores sublinham a importância da empatia no cuidado como atributo principalmente cognitivo que presume entendimento, mais que sofrimento pelo facto de cuidarem dos doentes, combinado com a habilidade de comunicar esta compreensão e dispor ajuda.

A angústia pessoal deverá então ficar de fora da definição e desenvolvimento da empatia no contexto dos cuidados de saúde, por conduzir a consequências negativas no bem-estar dos profissionais de saúde.

A preocupação empática e a tomada de perspetiva, ao contrário da angústia pessoal, são componentes empáticas que incrementam a perceção de eficácia nos profissionais de saúde, quando estes inferem os estados mentais dos doentes.

Os resultados obtidos neste projeto de investigação, sugerem assim, que:

  1. Dar atenção aos sentimentos dos outros enquanto se pensa na mente dos doentes, aumenta a o bem-estar do profissional e a sua satisfação no trabalho;
  2. Tornam compatível a consideração das necessidades dos doentes com as necessidades dos profissionais de saúde: relações empáticas reforçam o envolvimento dos doentes e a satisfação com o seu processo terapêutico, melhora a qualidade do cuidado e reduz os erros médicos.

Portanto:

Inferir estados mentais aos doentes não é necessariamente a causa de elevados níveis de burnout. Ao invés, os resultados apontam para que a tomada de perspetiva, inferência de estados mentais e preocupação empática, desempenham um papel protetor dos profissionais de saúde, relativamente ao burnout;

Infelizmente, alguns profissionais de saúde, assumem que o distanciamento pode ser a resposta necessária para evitar a exaustão emocional. Todavia, a evidência mostra que inferir estados mentais e a tomada de perspetiva, podem ser caminhos eficazes para reduzir a angústia pessoal, provavelmente porque os recursos atencionais estão alocados no outro e não, no próprio.

Para a leitura completa do artigo, visite a referência.

Delgado, N., Bonache, H., Betancort, M., Morera, Y., & Harris, L. T. (2021). Understanding the Links between Inferring Mental States, Empathy, and Burnout in Medical Contexts. Healthcare, 9(2), 158. doi:10.3390/healthcare9020158

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Palavras chave: empatia, burnout, exaustão, exaustão emocional, inferência de estados mentais, bem-estar, profissionais de saúde, cuidadores, doentes