Música, cérebro, imunidade, stress e relações sociais!

Reconhecemos os efeitos da música nas nossas vidas. A questão central dos autores é a de apreciar se o facto de escutarmos música, provoca uma impressão neuroquímica e respostas fisiológicas próprias, per si, ou seja, independentemente de outros fatores.

Embora a música possa ser utilizada de forma intuitiva e sem métodos provados, é de salientar o corpo crescente de literatura científica que endereça a sua investigação, através de experiências sólidas.

O objetivo com este texto é o de destacar algumas informações espelhadas no artigo (referenciado no fim), apelando à leitura do original, para um maior aprofundamento.

16 razões para ouvir música

1.A música, tem o dom de evocar uma ampla gama de emoções, desde a alegria ao relaxamento, contentamento, tristeza, medo, conforto e a combinação destas. O facto de ter um papel facilitador na regulação das emoções é uma das razões mais citadas e que explicam, a razão pela qual, as pessoas ouvem música;

2.Serve para alterar os nossos estados internos de humor, mas também nos ativa, facilitando a concentração, coordenação, cooperação, atenção, vigília, motivação e movimento;

3.É também utilizada nos contextos clínicos, principalmente para favorecer a gestão da dor, o relaxamento, processos psicoterapêuticos e de desenvolvimento pessoal, contribuindo para a promoção da saúde e bem-estar;

4.A música é um estímulo que não apresenta um benefício tão claro para a nossa sobrevivência, como apresentam o da comida e do sexo. Não tem propriedades aditivas como aquelas que ocorrem pelo abuso de drogas. Contudo, as pessoas investem um tempo considerável a ouvir música, considerando-a uma das atividades mais prazerosas da vida. Existe então, uma recompensa evidente na nossa aproximação à música!;

Basess biológicas

5.Avanços na neurociência cognitiva evidenciam que a música influencia os mesmos sistemas neuroquímicos de recompensa, ativados também por outros estímulos essenciais à vida, como a comida, a água, o sexo e não essenciais, como as drogas (e outras adições);

6.Estudos de imagem em humanos têm demonstrado que o desejo por cocaína, comida saborosa e o humor, produzem ativações em estruturas cerebrais (nomeadamente do Sistema Límbico  que integra as estruturas cerebrais responsáveis por algumas respostas homeostáticas, e também  envolvidas, nos comportamentos emocionais, sexuais, motivação, memória e aprendizagem – é um sistema comum ao cérebro de todos os mamíferos). A tecnologia de neuroimagem tem sondado a libertação central de dopamina, durante a perceção de música agradável (a dopamina, é um neurotransmissor que para além de ser fundamental no controlo motor, no nosso humor, cognição, emoção e aprendizagem,  “permite-nos”  ter um comportamento de exploração e recompensa pelo resultado satisfatório dessa exploração…se procuramos música para correr mais rápido (explorar) e isso tem efeito positivo e prazeroso (recompensa), da próxima vez que formos correr, repetimos a procura por músicas similares…).

Stress

7.Todos os organismos vivos procuram manter a homeostasia (estado de equilíbrio dos seus sistemas), através da alostase (processo biológico que procura o estabelecimento do equilíbrio). O stress pode ser definido como a resposta neuroquímica à perda de equilíbrio homeostático, motivando o organismo a envolver-se em atividades que restauram esse equilíbrio. As nossas decisões por opções que induzam a redução do stress continuado, são opções que nos ajudam na prevenção de doenças e  a música, pode estar entre essas escolhas.

Os efeitos da música no stress

8.Ouvir música relaxante (lentas e sem letra), tem demonstrado reduzir ansiedade e stress em sujeitos saudáveis, mas também, em indivíduos com procedimentos invasivos em curso (ex: cirurgia, colonoscopia, procedimentos dentários), crianças submetidas a procedimentos médicos e pessoas com doença coronária. Ouvir música após uma intervenção dolorosa, reduz a necessidade de recorrer a sedação e toma de analgésicos. Estes efeitos têm estado associados ao potencial de distração que a música proporciona e ao seu poder regulador dos estados emocionais;

9.Os efeitos da música relaxante sobre os níveis de hormonas do stress, tem demonstrado ser o da redução da ativação do eixo Simpático-Adrenal-Medular (este eixo SAM, faz parte do sistema neuroendócrino e desempenha um papel fundamental na resposta ao stress pois aumenta a atividade do Sistema Nervoso Simpático e contribui para a libertação de catecolaminas (1,2), através da estimulação das glândulas adrenais. Assim, a adrenalina (1, relacionada com o stress emocional) e noradrenalina (2, relacionada com o stress físico), quando libertadas na corrente sanguínea, promovem o incremento da frequência cardíaca, vasoconstrição e disponibilização de glicose, preparando o organismo para o esforço físico, não sendo talvez a resposta mais ajustada, quando não é requerido o esforço físico como resposta!;

10.A música relaxante tem demonstrado promover a redução dos níveis de cortisol (designada a hormona do stress) no sangue;

11.A dúvida dos autores é a de se, as reduções abordadas no ponto 9 e 10, são devidas ao efeito da música per si, ou se o terapeuta presente, não influenciará a resposta fisiológica benéfica nos sujeitos expostos à música relaxante;

12.A perceção e cognição da música são subjetivas e influenciadas por diferenças individuais e os estados de humor;

Imunidade

13.A música promove o incremento da imunidade, através da atividade das células NK (importantes para nos proteger da proliferação de células tumorais e infeções);

14.A música, ativa propriedades anti-inflamatórias, contribuindo para o reforço da função imunitária, todavia e mais uma vez, os autores discutem se os efeitos são derivados da música, ou do fator grupal, associativo, construtor de laços sociais que se estabelecem por causa da música…é conhecido o papel primordial do suporte social, na melhoria da função do nosso sistema imunitário, na facilitação da gestão emocional e no envelhecimento saudável.

Afiliação, laços sociais

15.Atividades sincronizadas como marcha, dança e música, estimulam sentimentos de envolvimento e pertença sociais: confiança e proximidade. Muitas atividades humanas são rítmicas, como o andar, falar, bater palmas, dançar, atividade sexual, embalar (bebé). Quando as atividades rítmicas são desempenhadas por grupos de pessoas, estas têm a tendência a ficar sincronizadas entre si, refletindo a coordenação social. Oxitocina e Vasopressina, são duas hormonas reconhecidas no seu papel regulador do comportamento social e são possíveis candidatos a mediar os efeitos sociais da música.

16.Mais estudos sobre vasopressina no contexto da investigação sobre os efeitos da música são necessários, mas relativamente ao efeito do incremento dos níveis da oxitocina, já se encontra evidência. Várias são as referências a estudos em que a escuta da música ou a escuta da voz musicalizada da mãe para um bebé (baby talk), promovem níveis aumentados da oxitocina nos recetores. Oxitocina, a tão badalada hormona do amor, empatia, confiança.

Conclusões

Que música vai escolher ouvir hoje?

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Palavras chave: música; stress; imunidade; motivação; interação; laços sociais; saúde; bem-estar

Chanda, M.L., Daniel, J.L.(2013). The neurochemistry of music. Trends in Cognitive Sciences 17 (4): 179-193.