O cérebro desliga enquanto cuidamos?

"O que o homem no mais fundo e mais íntimo de si próprio quer, e de onde provêm todos os seus outros desejos, é não ser coisa, é não ser coisificado", esta é uma afirmação do filósofo Fernado Savater que de facto me fascina!

Reflete uma necessidade transversal a todos os seres humanos e que independe da idade, condição de saúde, credo, cor…

Pretendo transportar esta necessidade para o contexto da vida de quem cuida de pessoas mais velhas em vulnerabilidade.

Sabemos que quem cuida por longos anos, pode estar mais ou menos exposto à vivência de stress continuado com as consequências para a saúde a que o stress crónico pode produzir…

...há vários fatores que vulnerabilizam estes profissionais que são chamados a responder à vulnerabilidade de um outro. Mas neste texto, não me vou deter nesses fatores, mas num outro que lhe é irmanado:

Será que o nosso cérebro pode desligar para se proteger?

Quando estamos perante desafios profundos e constantes no cuidado que exercemos, sofremos com as perdas sucessivas relativamente às pessoas de quem cuidamos e às quais nos ligamos, não só perdas efetivas, mas também, à perda das suas capacidades. Em determinadas fases, podemos sentir que não temos os recursos necessários para gerir a exigência dos desafios diários a que somos expostos.

E sim…o cérebro pode proteger-nos e uma das suas formas de o fazer, é passando a ver coisas, no lugar de pessoas e assim, o nosso sofrimento parece que ameniza…é com este foco no cérebro social, principalmente sobre cortex pré-frontal medial que Lasana Harris desenvolve a sua atividade de investigação.

O córtex pré frontal medial é ativado quando interagimos com outras pessoas, em ação, ou pensamento. É uma área cerebral de particular importância no que diz respeito à cognição e comportamento sociais. Esta área, não é ativada quando operamos objetos.

Lasana Harris verificou que a atividade do córtex pré frontal medial dos sujeitos de uma das suas experiências, ficava reduzida perante a visualização das fotografias com pessoas em condição de sem abrigo, ao contrário do que acontecia face à exposição de fotografias com pessoas de outros grupos sociais.

Harris sugere então que o cérebro, desliga as suas estruturas que percebem a pessoa em condição de sem abrigo como ser humano, reduzindo o fenómeno empático e ajudando a ultrapassar sentimentos fortes e desconfortáveis que advêm do facto de não lhes darmos dinheiro. As pessoas sem abrigo passam por instantes, a ser coisas.

Assim, voltando à ideia inicial de Savater que nos alerta para a necessidade de não sermos coisas e de não sermos tratados como tal, percebemos que para isso aconteça, é necessário criar condições para que a empatia possa ser desenvolvida em segurança. A segurança de quem cuida. A empatia não é incondicional.

 

Harris LT, Fiske ST. Dehumanizing the lowest of the low: neuroimaging responses to extreme out-groups. Psychol Sci. 2006 Oct;17(10):847-53. doi: 10.1111/j.1467-9280.2006.01793.x. PMID: 17100784.

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Palavras chave: empatia, cuidado, profissionais de saúde, estratégias de coping, desumanização, cérebro, stress, burnout