O que é comunicação relevante?

E quando pessoas que vivem com demência refletem sobre o que é uma comunicação boa e relevante?
As pessoas com demência vivem processos de declínio cognitivo que afetam a sua capacidade de comunicar, nomeadamente encontrar as palavras e aquelas que são as mais certas para o contexto, expressar-se verbalmente, processar informação, entre outras. Por consequência, em determinada fase das suas vidas, sentem dificultada a satisfação das suas necessidades.

Com a comunicação prejudicada nas pessoas com demência, a solidão e isolamento podem ser vividos de forma mais intensa, pelo que o desenvolvimento de interações relevantes e bem-sucedidas, evitam a erosão da rede social que ainda possuem e facilita a experiência de bem-estar.

Neste estudo (e muito bem) as pessoas com demência participam com as suas reflexões, sobre o que é relevante na interação.

Como foi estudada a relevância da comunicação neste estudo qualitativo?
Foram feitas gravações de vídeo com a duração de 12 a 15 minutos, envolvendo a interação entre o cuidador informal e a pessoa com demência, no interior das suas próprias casas;

A interação envolvia uma tarefa comum que era escolhida por cada díade (ex: ver fotografias);

Excertos das gravações foram apresentadas aos idosos com demência, para obter a sua reflexão sobre aspetos relevantes da interação e também, as suas respostas a entrevista semi-estruturada cujas perguntas eram: O que gostou?; O que não gostou? Como se sentiu?; O que o fez sentir-se assim? … este processo foi repetido 4 semanas depois;

Não se escolheram as pessoas idosas pelo tipo de demência, mas escolheram-se as idosos com diversos tipos de demência que ainda conseguiam: i) dar consentimento para a metodologia implementada e ii) capazes de verbalizar, falar.

Os temas que os participantes mais valorizaram na interação foram os seguintes:
Entendimento mútuo – O fato de perceberem que o cuidador faz esforço em compreendê-los, encoraja-os a continuar a iniciar as interações, participando ativamente, na manutenção das suas relações;

Ser escutado – Quando percebem que são escutados de forma consciente e não são constantemente interrompidos, sentem-se valorizados. Ao contrário, quando se sentem interrompidos, sentem-se também desvalorizados e inibem a iniciativa de estabelecer novas interações dentro da díade;

Presença física – A presença física e emocional proporcionada por atividades em comum com o cuidador, são importantes para manter a proximidade na relação;

Relembrar o passado – Quase todos os participantes abordaram o "recordar" com o seu cuidador familiar, no decurso das conversas. Permite-lhes manter memórias, linguagem e significados comuns, relativamente a eventos externos ou internos (ex: emoções), contribuindo para a manutenção do senso de unicidade, identidade.

Partilha de sorrisos/gargalhadas – Proferir anedotas ou piadas que têm como eco a reciprocidade do cuidador, contribui para a criação da positividade em torno da interação, diluindo tensões parte a parte.

Em suma e mais uma vez, a aposta numa comunicação centrada na pessoa e relação, se percebe favorável para ambos os lados da díade de cuidado. Faz parte de uma boa prática de cuidado e como os autores referem “developing and sustaining valued relationships which in itself is therapeutic” e eu acrescento, sem ser uma terapia em particular. As pessoas reconhecem quando não desistimos delas!

Palavras chave: relações, demência, cuidado centrado na pessoa, comunicação, comunicação centrada na pessoa, comunicação centrada na relação, comunicação humanizada, participação, cuidadores informais, cuidadores familiares, perspetiva das pessoas com demência, interação, entrevista.

Alsawy S., Tai S., McEvoy P., & Mansell W. (2019) ‘It’s nice to think somebody’s listening to me instead of saying “oh shut up”’. People with dementia reflect on what makes communication good and meaningful. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 27 (2): 151-161. DOI: 10.1111/jpm.12559