Porque antes de sermos o ancião, somos o bebé...

Porque antes de sermos o ancião, somos o bebé e porque antes de sermos um indivíduo, somos a díade cuidador-recém-nascido…afinal, porque é tão necessário dar particular atenção ao desenvolvimento emocional do bebé homo sapiens sapiens?

Gould conduz-nos ao processo de filogenia que descreve o desenvolvimento de uma espécie ao longo do tempo geológico de milhares de milhares de anos e das suas origens comuns, integrando a partilha de material genético e exibição de homologias. Igualmente nos conduz ao processo de ontogenia que descreve o desenvolvimento do indivíduo, no caso do homem, desde a fecundação do óvulo até à velhice. Etapas da ontogénese podem ser aceleradas ou atrasadas em relação a outras etapas durante a filogénese, emergindo assim o conceito de heterocronia. O atraso de uma etapa específica do desenvolvimento, pode conduzir à neotenia, ou seja, manutenção nos descendentes, de formas juvenis dos ancestrais. Da ontogenia humana, sublinhamos a neotenia do cérebro que o processo evolutivo privilegiou com alguns custos, seleccionando as suas potencialidades adaptativas a meios instáveis e complexos.

Nascemos com um cérebro neoténico quando o comparamos com o de outros mamíferos e sabemos que  “Genetic and environment potentials go together like a horse and a carriage” (Panksepp,1998), uma analogia interessante face ao conceito de programa de desenvolvimento que emerge da etologia e que numa perspetiva ontogénica, obviamente apresenta especificidades no homem. Faz sentido centrar-nos nos programas abertos, mais recentes em termos filogenéticos e que por tal, implicam grande envolvimento do neocórtex. São abertos, pois processam-se em estreita relação com o ambiente e proporcionam a contínua maturação das estruturas do límbico que garantem a sobrevivência do recém-nascido em condições de cuidados e de um neocórtex que só se desenvolverá através da experiência que deriva da aprendizagem e do afeto fundamentais, devolvidos pelo cuidador, facilitando a gestão dos estímulos físicos e sociais proporcionados pelo ambiente (Trevarthen, 2010). 

Schore (2001) referindo-se à investigação de Damásio, designa o período de desenvolvimento na primeira infância, por regulação emocional, posicionando-o como central no desenvolvimento normal ou anormal das estruturas neuronais, circuitos e suas funções respectivas. Assim, a relação simbiótica entre a díade cuidador-bebé, materializa o potencial herdado em ações: atividade neurogénica e sinaptogénica, em particular do hemisfério direito. A sua adaptabilidade ou “maladaptatividade” é por conseguinte, fator fundamental na saúde mental da criança e com forte impacto na gestão das suas vidas futuras, pois não haverá janela temporal em que o cérebro apresente tão elevada atividade metabólica, como nos primeiros três anos de vida. Assim, a regulação emocional, como princípio organizador do desenvolvimento e motivação, estão dependentes da maturação assimétrica do cérebro. De uma forma sumária, hemisfério direito é o principal envolvido no processamento da informação emocional, social e nas funções de vinculação que desempenham um papel primordial na regulação dos estados somáticos e afetivos, bem como, no controlar funções vitais de sobrevivência, permitindo a gestão do stress e da novidade. A Regulação emocional à nascença é bi partida, em parte operacionalizada pelo cuidador através da comunicação emocional e através deste processo, transferir, desenvolvendo a autonomia da regulação no pequeno ser.

A ausência de estímulo afetivo (auditivo, visual, toque, mimo) durante este período, ativa a produção de corticotrofinas por períodos prolongados que resultam em lesões com caráter de irreversibilidade das áreas do límbico e córtex. Ao invés da neuro e sinaptogénese, a apoptose neuronal domina, implicando em desajustes comportamentais, emocionais e cognitivos (Chungani et al., 2001). 

Visualizar recursos em:

Experiências de Harlow - privação da mãe

Estudo sobre crianças orfãs - privação de estímulos em contexto institucional

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Palavras Chave: desenvolvimento emocional, gestão emocional, ontogénese das emoções, vinculação, cérebro social      

Chungani, H.T., Behen, M.E., Muzik, O., Juhász, C. (2001). Local Brain Functional Activity Following Early Deprivation: A Study of Postinstitutionalized Romanian Orphans. Neuroimage 14, 1290-1301.

Gould, S.J. (1988). O Mundo Depois de Darwin – Reflexões sobre a história natural. Lisboa: Editorial Presença.      

Panksepp, J. (1998). Affective NeuroscienceThe foundations of Human and Animal Emotions. NY: Oxford University Press.

Schore, A.N. (2001). Effects of a Secure Attachment Relationship on Right Brian Development, Affect Regulation, and Infant Mental Health, Infant Mental Health Journal 22, 7-66.