Que efeitos têm os pensamentos positivos na relação entre a sobrecarga do cuidador e a manifestação

Em 1950 foi publicado um livro de auto-ajuda designado de “O poder do pensamento positivo”. Na ocasião, da comunidade científica americana, surgiram muitas críticas ao autor do livro, também ele americano. E hoje…é um dia em que partilho o poder do pensamento positivo, na relação de cuidado e nos membros da díade que a compõem.

A ciência absorveu desde então, a importância de estudar alguns processos associados a temas da autoajuda, nomeadamente o pensamento positivo, colocando-lhes um olhar e métodos próprios para a produção de conhecimento baseado em evidência.

Um aspeto a ter em conta quando pensamos em pensamento positivo é este: não representa somente o contrário de ter pensamentos negativos. É mais do que isso e o instrumento que avalia esta competência neste estudo, define os comportamentos que integram este mesmo processo.

Porquê um estudo que pretende avaliar o papel do pensamento positivo na relação de cuidado ao sénior que vive com demência?
Muitos dos cuidados prestados a pessoas que vivem com demência (PLWDs) são providenciados em casa pelos cuidadores informais. Este cuidado, incrementa as responsabilidades dos cuidadores que quando percecionados em sobrecarga, podem influenciar negativamente a saúde física e bem-estar dos próprios e contribuir para a emergência de problemas comportamentais das PLWDs que são alvo dos seus cuidados.

Embora já investigado o papel do pensamento positivo (PT) noutras áreas, este estudo particulariza o seu efeito na relação entre a sobrecarga do cuidador  informal e a ocorrência de problemas comportamentais nas PLWDs.

O objetivo deste estudo é então:
Avaliar o papel mediador e/ou moderador do PT, na relação de cuidado, esclarecendo a ligação entre a sobrecarga do cuidador e a emergência de desafios de comportamento, vividos pelas PLWDs.

Grosso modo, com mediação, pretende-se avaliar se: o PT explica também, a ocorrência de problemas comportamentais na PLWD; Com moderação, procura-se examinar se: o PT, reforça ou enfraquece a relação entre a sobrecarga do cuidador e a vivência de problemas comportamentais na PLWD.

Alguns pressupostos destacados pelos autores:
A resiliência é uma competência que reflete a capacidade de gerir as adversidades a que somos expostos. Sendo uma competência, podemos tê-la mais ou menos desenvolvida e portanto, lidamos mais ajustadamente ou não, com os desafios;

A sobrecarga do cuidador, manifesta uma resposta a pressões de diversas naturezas, física, social, psicológica e emocional, relacionadas com o processo de cuidar. Quando vivemos as consequências da sobrecarga, podemos colocar em risco a nossa capacidade resiliente, ou seja, de esgrimir positivamente os desafios decorrentes do ato de cuidar;

Se a sobrecarga do cuidador pode beliscar negativamente a sua resiliência, o PT pode ter um efeito inverso…beliscar positivamente a resiliência, ajudando o cuidador a superar as potenciais adversidades do ato do cuidado (continuado);

Entende-se por PT, um processo cognitivo que nos ajuda a desenvolver ideias otimistas, tomar melhores decisões e gerir situações percebidas como difíceis. Este processo cognitivo tem sido identificado como correlacionado com a qualidade de vida, bem-estar físico e psicológico. Sendo que ainda não foi estabelecido o seu papel na relação entre a sobrecarga do cuidador informal e problemas de comportamento experimentados pelas PLWDs que recebem os seus cuidados.

Os problemas comportamentais das PLWDs, incluem uma ampla gama de reações tanto psicológicas como psiquiátricas, representando uma importante dimensão clínica da demência. Lidar com estes problemas e com a sua frequência, constitui uma responsabilidade adicional para o cuidador e pode contribuir para a sobrecarga destes.

Como realizaram a investigação para responder ao objetivo que definiram?
  • Este estudo descritivo, recrutou 100 cuidadores de PLWDs, que consentiram participar na investigação;
  • As PLWDs tinham entre 50 e 98 anos, sendo a média de idades de 76;
  • Os cuidadores classificaram o seu estado de saúde de acordo com as suas perceções;
  • Foi recolhida informação sobre se os cuidadores viviam na mesma morada que a PLWD e também sobre o tipo de cuidado que prestavam (a presente investigação, 25% dos cuidadores eram mulheres que cuidavam dos seus maridos, 40% eram filhos/as e os restantes 35%, eram irmãs/irmãos ou representavam outro tipo de relação. 31% dos cuidadores vivia em conjunto com a PLWD e 64%, providenciavam apoio direto nas atividades diárias);
  • Para avaliar a sobrecarga dos cuidadores, foi realizada uma entrevista validada para o efeito e que continha 22 questões (ex: Gostava de poder transferir o trabalho que tem com o seu familiar para outra pessoa?; Sente-se irritado quando está com o seu familiar?; Sente que poderia cuidar melhor do seu familiar?...). As respostas às 22 questões, eram categorizadas em 3 fatores que poderiam ter valores maiores ou menores, tendo em conta a classificação que lhes foi atribuída pelo cuidador: i) irritação/incómodo, ii) dependência da PLWD e iii) autocrítica;
  • Para o pensamento positivo, os cuidadores auto-avaliaram-se em  8 competências (ex: Tranformo os pensamentos negativos; Gero sentimentos positivos; Destaco os aspetos positivos; Divido os problemas em partes…). A classificações mais elevadas, relacionava-se um maior grau de competência em PT;
  • Os problemas comportamentais e de memória associados à PLWD, foram identificados pelos cuidadores, relativamente à frequência da sua manifestação pela PLWD (ex: Coloca a mesma pergunta repetidamente; Esquece-se de qual o dia em que está; Parece triste o deprimido/a; Fala sobre sentir-se só;  Começa, mas não acaba coisas…). Os 24 comportamentos desta lista permitiam criar as seguintes categorias: i) memória, ii) depressão e iii) confusão; Cada uma destas categorias teve um valor maior (+ “problemas”) ou menor (- “problemas”), consoante a classificação que lhe foi atribuída.

Resultados e sugestões:
Os autores pretendiam avaliar a mediação e/ou moderação do PT na relação de cuidado, tendo em consideração que:

a) do lado do cuidador se encontra a possível sobrecarga, caracterizada por mais ou menos irritação no processo de cuidar, maior ou menor dependência da pessoa da qual cuidam e do maior ou menor grau de crítica que podem estabelecer consigo próprios;

b) do outro lado da díade, temos a PLWD, com problemas de comportamento que podem ser operacionalizados em mais ou menos esquecimentos (memória), maior ou menor grau de depressão e confusão.

Tendo em conta a forma como o estudo foi conduzido e desenhado, percebeu-se que:
  • A irritação/incómodo, autocritica e perceção da dependência da PLWD, predizem a depressão na PLWD e esta relação, é moderada pelo PT;
  • Quanto mais desenvolvido está o PT, mais fraca é a força da relação entre irritação/incómodo (do cuidador) e confusão (na PLWD), assim como acontece com a auto-crítica (do cuidador) e depressão (na PLWD).

Os autores sugerem a importância em se desenvolver o PT junto dos cuidadores informais, ajudando-os: a analisar os desafios do cuidar, separar os aspetos menos positivos dos mais positivos, utilizar os aspetos positivos a seu favor e da relação, interromper diálogos internos negativos através de técnicas de relaxamento ou distrações.  

Como nota pessoal, destaco a capacidade de análise dos desafios de cuidar como um aspeto de extrema importância de onde poderão decorrer mais facilmente, as outras componentes do PT. Por vezes o problema parece-nos gigante e ao dividi-lo em partes, alocar a cada uma das partes os recursos que estão à disposição e conhecemos ou desconhecemos e procuramos, definir ações mesmo que pequenas para cada uma dessas partes…não havendo milagres…parece que conseguimos transformar a montanha, num rato.
Um cuidador em sobrecarga nunca deve desistir de si. Pedir ajuda quando necessário, mesmo que custe horrores! Desistir de si é desistir da vida.

Palavras chave: Demência, cuidadores informais, pensamento positivo, problemas comportamentais, sobrecarga, depressão

Becket A.K., Vilarreal M.G. (2019) Effects of Positive Thinking on Dementia Caregivers’ Burden and Care-Recipients’ Behavioral Problems. Western Journal of Nursing Research 42 (5):365-372. DOI: https://doi.org/10.1177/019394591986197