Diálogo com André Viamonte

Diálogo com André Viamonte

Compositor | Musicoterapeuta

Artista residente do Festival Mental

Enquadramento: Já passaram 10 anos, desde que usufrui do seu trabalho de terapeuta, com o fito de desenvolver a sensibilidade criativa. Foram encontros de trabalho árduo para uma mente mais baseada na lógica das coisas, mas também se pautaram por um humor incrível! Passados 10 anos, o André consegue oferecer-nos muito mais de si com uma produção artística admirável e com mais concretizações para breve! Sendo a humanização, pessoas maiores, profissionais e familiares que cuidam, pilares transversais aos Diálogos do site da Métis, é uma satisfação enorme, tê-lo também aqui, contribuindo de outra forma para estes mesmos pilares através de três perguntas.

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Métis: Facilmente ficamos viciados ao escutar as músicas que gostamos de ouvir. O melhor de tudo, com este vício, é que não padecemos em paralelo, dos efeitos negativos que outras adições proporcionam, beneficiamos antes, de tudo o que ela nos dá ao investirmos tempo nela. O André usa este poder viciante da música e da voz que a canta, para dialogar connosco, através de mensagens e propósitos muito específicos. Em que mensagens gosta de nos “viciar”?

André Viamonte: As mensagens terão sempre a ver com a parte de mobilidade emocional. Despertar os ouvintes para algo interno, levá-los a uma viagem interior e de se descobrirem pelo que ouvem. Existe muito a necessidade de consciencialização e de sensibilização para situações que possamos simplesmente não querer ou não ter disponibilidade para as sentir. Tornar a comunidade mais consciente, mais humana e consequentemente mais empática, esse será o verdadeiro propósito.

É urgente sentir e expressar o que se sente, para isso precisamos de um veículo que nos permita essa descoberta.

Métis: A música é também uma ferramenta que utiliza nos processos terapêuticos. Ao escutar o humanGOD, fala do casamento perfeito entre a essência que nos unifica e aquela que nos eleva…é a mesma, mas conduz-nos por sentires diferentes. Será este o objetivo da musicoterapia ou antes, porém, o efeito da música de uma forma geral?

André Viamonte: De uma forma mais didática e correcta poderemos afirmar que o objectivo da musicoterapia é de desenvolver, promover e/ou restabelecer funções do indivíduo para que o mesmo possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento. 

Ou seja, é pela utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um profissional qualificado, que irá intervir, facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.  

Após o meu mestrado e de ter trabalhado com vários grupos de idosos, percebi que a música é mais que meras notas em harmonia. Poderá ser uma plataforma de criação musical onde as pessoas se unem para contar cada uma das suas histórias de vida. Poderá ser um portal do tempo que se abre ao cantarmos aquela nossa canção.

Como compositor, achei fascinante o propósito da musicoterapia e sensibilizou-me para a necessidade de criação de música e composições com um objectivo de criar empatia através das suas mensagens.

humanGOD foi realizado como ponte de união entre culturas tão diversas, mas que se encontram na partilha musical. É a afirmação de que "somos todos um". 

Um tema que aponta diretamente para "o coração" para um sentimento de união. Somos meramente humanos, mas juntos, em uníssono, com a ajuda do conhecimento do passado e com a tolerância e sensibilidade, compreendemos a força que temos juntos... que se resume ao que é mais puro e mais divino. Somos uma aldeia global. O resultado de trocas de conhecimento dos nossos antepassados.

Assim, foi necessário utilizar instrumentos culturais tradicionais que são símbolos desta mesma troca de conhecimentos, tais como: - o adufe (um instrumento de percussão tradicional português, um pandeiro quadrado que por sua vez herdamos e teve a sua origem do norte da África), - o cavaquinho pequeno instrumento de corda Português na família de violão europeu, com quatro cordas, que foi introduzido pelos portugueses no Brasil, Cabo Verde, Havaí, Indonésia), - o guzheng (também conhecido como cítara chinesa instrumento de corda com mais de 2.500 anos de história).

O uso desses instrumentos tradicionais, combinados com melodias contemporâneas nos dá um tema que é o resultado de um legado de trocas culturais.

Métis: Tem um projeto de sensibilização e humanização em parceria, para lançar ainda neste ano, numa data muito particular. Já nos pode agraciar com alguma informação sobre este trabalho?

André Viamonte: Devido à importância de sensibilizar para o facto de que é necessário dar uma especial atenção aos idosos cujo contexto actual “empurrou-os” para um isolamento obrigatório e uma mudança de rotinas.

De facto com uma sociedade que muda as regras de contacto social, o que parece mais chato para uma população activa, para uma população idosa poderá ser devastador. Exigiu-se-lhes pela sua proteção que assistissem das suas janelas ao “continuar da vida”, muitos por lá continuam.

Enclausurados, sem o contacto físico ou social com os entes mais próximos, a sensação de “roubo” do pouco tempo que lhes resta é inevitável. “A vida vai torta jamais se endireita...” poderia ser um excerto de um tema actual devido ao contexto de crise social que vivemos. Mais do que uma simples canção, representa todo um passado musical de várias gerações. Sobretudo de filhos e de pais que ouviam esta mesma canção juntos...

Agora, a mesma canção traz-lhes a mesma letra em forma de memória que nos diz o mais fundamental: “Quero-te tanto”. A sensibilização para a continuação do contacto social através de formas laterais de comunicação passa a ter uma visão mais que importante: “vital” do que é a ligação social destas mesmas gerações.

Assim como intérprete e compositor, achei importante o resgate de um tema que fizesse sentido: Circo de Feras - Xutos e Pontapés,  dando-lhe um arranjo mais orquestral e simples, sublinhando a beleza de um tema que é de uma simplicidade complexa. Nesta mesma versão, convidei a Mafalda Sachetti que considero das vozes mais sensíveis e empáticas de um timbre que é reconhecível. Mais do que um tema é uma forma de reminiscência a todo um passado musical de um país.

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Se utiliza a música para as suas caminhadas, para acompanhar outras atividades ou mesmo quando contempla algo, continue este diálogo, na prática musical de André Viamonte, através do Spotify

A Métis espera ter-lhe proporcionado um bom momento de leitura, reflexão e de um despertar de curiosidade em escutar o novo arranjo orquestral do Circo de Feras (nós ficámos!) e agradece profundamente a conversa e partilha deste testemunho, a André Viamonte