Diálogo com Carla Xavier

Carla Xavier

Psicóloga, formadora em Direitos e Humanos e Igualdade de Género

Gestora de projetos sociais

Clube Intercultural Europeu

 

Enquadramento: o cuidado ao outro, é ainda uma abordagem que associamos ao feminino. Não sendo o feminino, uma característica exclusiva das mulheres, estas acabam por ser uma preocupação sua, há largos anos. Vamo-nos debruçar sobre elas neste pequeno diálogo?

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Métis: Em 1958, foi publicado o poema de António Gedeão, “Calçada do Carriche” que exaltava as heroínas silenciosas de uma nova organização do trabalho para a qual as mulheres contribuíram, dedicando-se às fábricas, mantendo as suas responsabilidades do cuidar. Em que medida este poema se encontra ou não atualizado?

Carla Xavier: Encontro várias “Luísas”, como a Luísa do poema, no meu dia a dia profissional. Desde a antiguidade que o papel do cuidado está ligado às mulheres. Os homens dedicavam-se a trabalhar para sustentar a família e as mulheres cuidavam dos filhos, dos idosos e dos dependentes e, claro, da casa.

Essa situação não se alterou com a integração das mulheres no mundo do trabalho. Ainda hoje muita gente se espanta se um homem opta por um contrato parcial ou uma licença para cuidar da família; ao mesmo tempo, ninguém se surpreendente quando é a mulher a tomar essa decisão.

Os tempos modernos não alteraram em grande medida esta situação, mas trouxeram alterações ao nível, por exemplo, do conceito de família: hoje em dia, existem muitas famílias monoparentais femininas, onde a mulher assume todos estes papéis. Esta situação tem um impacto enorme na sua saúde física e mental, ao mesmo tempo que a coloca ainda mais em desvantagem no que toca ao seu desenvolvimento social, educativo e financeiro.

O trabalho de cuidado é o “motor oculto” que mantém as nossas economias e sociedades a funcionar.

E neste ponto, permite-me introduzir a situação das mulheres migrantes: muitas vieram sozinhas para Portugal com o intuito de melhorar as condições de vida dos seus filhos e filhas, procurando acesso à educação, saúde e segurança e a um salário digno. Muitas vieram em fuga de situações de violência e maus-tratos por parte das comunidades patriarcais onde nasceram. São elas que assumem estes trabalhos desvalorizados socialmente; são elas quem cuida das nossas casas, dos nossos filhos e filhas, dos nossos séniores. Entre o trabalho e o cuidado dos seus filhos e filhas, sem rede familiar e social, têm pouco tempo para aceder à sua própria educação e formação profissional, para se envolver na vida da comunidade ou participar na tomada de decisões na sociedade. E é por isso que estas mulheres estão aprisionadas na base da pirâmide económica e sofrem múltiplas discriminações que insistimos em invisibilizar.

Métis: Conseguiria dar-nos um panorama sobre que funções profissionais exercem as mulheres e que mais as obriga a ter vários trabalhos em simultâneo? Na sua experiência, e se pudesse destacar unicamente três desafios | dificuldades que emergem desta multiplicidade laboral, quais destacaria?

Carla Xavier: Respondo a esta questão com base na observação que faço no meu dia a dia de trabalho que, enquadrando, está ligado a comunidades residentes em bairros de Lisboa onde se vivem muitas vulnerabilidades sociais.

Ao longo da história sempre houve trabalhos ou tarefas que eram consideradas femininas por exigirem menos força física e estavam mais ligadas ao cuidado das pessoas, sendo que trabalhos que exigiam maior força física eram praticamente proibidos para as mulheres, bem como cargos que exigiam tomada de decisão ou gestão.

Ao longo dos anos esta situação mudou e hoje as mulheres podem aceder a qualquer emprego, embora ainda se considere que existem cargos mais adequados para elas. Existem vários trabalhos e investigações no âmbito dos enviesamentos inconscientes (mecanismos inconscientes e automáticos que, muitas vezes, condicionam a tomada de decisões, influenciadas por preconceitos e estereótipos) e já encontramos algumas empresas a dar formação aos seus departamentos de RH neste âmbito.

Mas de volta ao tema, as mulheres continuam a estar concentradas em determinados setores de atividade em Portugal e que estão relacionados com as tais tarefas de cuidado: educação, atividades domésticas, auxiliares de cuidados a terceiros. Claro que aqui estou-me a focar nestas “Luísas” que António Gedeão tão bem descreve no seu poema, o que não invalida que outras mulheres que se encontram em situações de maior privilégio também não se deparem com estas dificuldades. Segundo o Eurostat, em 2021 a diferença salarial entre homens e mulheres era de 14,1% na EU; em Portugal era de 10,6%.

Perante esta situação, e sobretudo quando pensamos nestas famílias monoparentais femininas de que falei acima, e tendo em conta a precariedade laboral portuguesa, é fácil entender que um único emprego, nestes setores onde tipicamente os salários são inferiores, obrigue estas mulheres a ter mais do que um trabalho. Juntemos-lhe sempre o trabalho que continua ao final do dia, no cuidado da casa, dos filhos e dos dependentes.

Métis: Sabemos que um cuidador, cuida tanto melhor, quanto mais ele próprio se sabe cuidar, conhecer suas forças e limites. Nos programas que desenvolve e que visam reforçar o valor humano destas mulheres em conjunto com elas, que tipo de comportamento ou pensares a fazem perceber que estão a viver uma transformação positiva…de maior atribuição de valor próprio? 

Carla Xavier: Esta transformação que refere é muito lenta e muito dura pois, quando trabalhamos com pessoas que vivem com as necessidades mais primárias por satisfazer, dificilmente têm espaço para pensar em necessidades menos primárias como a saúde mental e o desenvolvimento pessoal. E quando se vive numa sociedade onde se é tratada como sendo, de algum modo, inferior, acaba-se por construir uma crença de que não se é merecedora de mais.

A transformação talvez comece quando alguém realmente se interessa pelo que pensam e por quem são, quando as diferenças que existem entre o Eu e o Outro são vistas com um sorriso e com genuíno interesse, e não como um perigo ou motivo de desconfiança.

Recordo um grupo de mulheres de origem indiana, e como se estabeleceu uma relação genuinamente segura quando começamos a trocar ideias sobre as suas tradições e modo como veem a cultura. Como a partilha de pratos típicos, de celebrações, de idiomas, favorece a que o Outro se sinta integrado e valorizado. E a partir destas esferas mais básicas, diria que estas mulheres vão construindo um sentir de maior valorização própria e se vão permitindo querer mais e questionar mais o que lhes é apresentado.

Lembro-me sempre de um professor que tive a sorte de ter, o Dr. António Coimbra de Matos, que dizia algo assim: eu começo a Ser na medida em que o Outro reconhece que existo. Somos seres altamente sociais, necessitamos da comunidade, dos Outros e Outras. Daí a importância de tornar visível as situações que as mulheres enfrentam.

Métis: Numa perspetiva excecional de ultrapassar as 3 questões que estabelecemos para os Diálogos de Humanização…acrescentamos mais uma. Na esfera individual de cada um de nós, naquilo que está sob o nosso controlo, que gestos da nossa parte, podem contribuir para uma melhoria da valorização destas pessoas, cujas vidas abordámos aqui?

Recomendo por iniciar o processo com uma respiração profunda e olhar para dentro: “Quais as crenças que tenho relativamente ao papel de mulheres e homens na sociedade? Que preconceitos identifico em mim quando penso neste tema?”. E fazê-lo sem julgamentos, a verdade é que todos e todas temos preconceitos, tem a ver com a forma como aprendemos, como fomos educados e educadas, como o nosso cérebro funciona!

O segundo passo é ser mais consciente destes preconceitos no dia a dia. E depois, com isto, vem a generosidade de olhar para o Outro com atenção, de descobrir o prazer que dá aprender com o que é diferente de mim. E virá então o quebrar da indiferença individual. Quando este último passo é dado, abre-se espaço para que a indiferença coletiva comece também ela a quebrar-se. Como? No exercício da cidadania diária, nas escolhas que fazemos sobre onde e como consumimos, que locais frequentamos, na participação em decisões sociais integrando movimentos ou simplesmente estando atento e atenta ao que se passa nestas esferas, sendo proativa/o.

E sempre, ou não fosse eu psicóloga, sempre conscientes que as transformações se fazem desde a relação.

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A Métis conta ter-lhe proporcionado um bom momento de leitura, reflexão e agradece profundamente a conversa e partilha de conhecimento e testemunho, a  Carla Xavier!