Diálogo com Dr. Francisco Isidoro

Dr. Francisco Isidoro
Psicomotricista
Vida Maior, em Maceira
 
Métis: No contexto do cuidado aos maiores que vivem com dependência, a sua profissão, em particular, a de psicomotricista, vem facilitar o estabelecimento da relação entre a pessoa e o seu contexto. Como consegue o psicomotricista fazer essa ponte, especialmente com quem acreditamos já não estar a querer comunicar com o mundo exterior?
 
Dr. Francisco Isidoro: Sem dúvida alguma, o psicomotricista é um terapeuta de relação. Quando nos deparamos com uma instituição para idosos, em qualquer valência que seja, uma das patologias que nos surge de imediato é a demência. Estas doenças neurológicas tem um grande espetro relativamente à pessoa idosa.

A comunicação direcionada para a pessoa com demência é um ponto-chave na intervenção do psicomotricista, visto que, é essencial para estabelecer a relação anteriormente referida.
Em casos onde a demência está num estádio mais avançado (III e IV) há uma grande necessidade de o psicomotricista priorizar a comunicação não-verbal, nunca deixando de tentar entender o que a pessoa possa verbalizar. É de extrema importância prestar atenção a todos os estímulos que a pessoa nos dá (verbal e não-verbal) e muitas vezes decifrar, não aquilo que a pessoa nos está a dizer, mas sim o que nos está a querer dizer.

Independentemente do estado demencial do idoso, este tem sempre necessidade de comunicar, de um modo ou outro, visto que é uma necessidade básica do ser humano.
 
Métis: Quando falamos em institucionalização, pensamos muitas vezes no desenraizamento da pessoa institucionalizada, do seu contexto natural. Que informações devemos conhecer da pessoa que está a ser institucionalizada, para que, ao ser integrada no novo contexto (essa informação), possa possibilitar a familiaridade de que necessita?
 
Dr. Francisco Isidoro: É fundamental que na admissão da pessoa idosa para a instituição, seja realizada uma avaliação diagnóstica sobre o contexto de vida e as competências da pessoa. Igualmente importante é realizar uma avaliação inicial (através da equipa multidisciplinar) para definir um plano de intervenção individual (PII), com vista à melhoria, ou em muitos casos, à manutenção das competências cognitivas, motoras e sociais do idoso.

Ressalvo também, a importância de criar um projeto de vida para a pessoa idosa dentro da instituição, bem como a posse de alguns objetos significantes para a pessoa (fotografias de família, a manta do sofá lá de casa, etc.).
 
Métis: Sabemos que a comunicação se faz através de gestos e palavras. Em que medida viu a sua dinâmica de trabalho junto dos maiores, em vulnerabilidade, ser alterada?
 
Dr. Francisco Isidoro: No atual projeto onde estou (Vida Maior- Maceira), temos muito presente que a forma como comunicamos com a pessoa faz toda a diferença na intervenção e na qualidade de vida que proporcionamos ao idoso.

O nosso foco principal é exclusivo ao bem-estar e á qualidade de vida da pessoa como individuo único. Portanto, mesmo com esta fase do COVID-19, acabámos por reforçar ainda mais o nosso leque de atividades terapêuticas, bem como as estratégias de comunicação com as famílias para combater este isolamento.

Apesar desta fase atípica, não houve grandes alterações na minha dinâmica de trabalho, visto que a minha equipa reforçou ainda mais todas as dinâmicas envolventes à intervenção terapêutica, no meu caso psicomotora.

Para terminar, gostaria de deixar claro, que independentemente da patologia e da idade da pessoa idosa, qualquer terapeuta tem sempre mais a aprender do que a “reensinar” a indivíduos nesta faixa etária.