Diálogo com Dra. Ana Pacheco

Dra. Ana Pacheco

Especialista em Medicina Geral e Familiar no ACES Almada-Seixal.
Atualmente a colaborar na USF Amora Saudável, onde concluiu o internato médico.
Integra também a Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES Almada-Seixal.
Mestranda em Cuidados Paliativos pela Universidade Católica de Lisboa, irá requerer a Competência em Cuidados Paliativos pela Ordem dos Médicos.
Mestrado Integrado em Medicina pela FMUL. Pós-graduada em Cuidados Paliativos Não-oncológicos (ICS, UCP Lisboa) e Hipnose Clínica Experimental (FMUL). Fez também formação em Psicoterapia Trajetória de Vida, fazendo parte do projecto Agentes Ativos da Felicidade e colaborando com o LIMMIT – Laboratório de Interacção Mente-Matéria de Intenção Terapêutica.
Do seu percurso fez parte ainda a fundação da Associação Move-te Mais e 2 missões de voluntariado em Cabo Verde.

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Métis: O contacto social é para os mamíferos, uma verdadeira necessidade biológica, como a comida e oxigénio. Como médica de família e no contexto da consulta, que comportamentos de comunicação | relação destaca, como sendo mais oxigenantes e nutritivos para os mais velhos que a visitam? Esses comportamentos ganham uma maior importância nesta fase de pandemia?

Dra. Ana Pacheco:

A manutenção de uma vida social activa na dita “3ª idade” é essencial para a saúde; saúde essa que deve ser vista como um equilíbrio de bem-estar nas dimensões física, psicológica, social e espiritual. O afastamento dos familiares ou amigos e o isolamento condicionam de forma importante a saúde de qualquer pessoa, em particular os idosos, uma vez que reduzem a sua actividade física e a estimulação cognitiva que o contacto social propicia, podendo estar na génese de síndromes ango-depressivos, alterações de memória ou comportamento ligeiros e reversíveis assim que se encontram estratégias para retomar as rotinas habituais. No período após o confinamento aquando da 1ª vaga da pandemia não foi raro ter situações de utentes idosos a quem fiz teleconsultas ou convoquei para avaliar presencialmente por queixas deste tipo; muitos com um sentimento de tristeza, ansiedade e insegurança pelo afastamento dos filhos e netos por exemplo. Sobre a máxima “a distância como sinal de amor e protecção”, alguns respondiam que preferiam morrer do que ficar longe da família. Neste âmbito, as técnicas de comunicação empática e o envolvimento dos familiares foi e continua a ser importante para resolver estas situações. Acima de tudo, tranquilizar as famílias e ajudá-los a adoptarem as estratégias correctas para que possam visitar os seus familiares idosos em segurança. Em vários casos foram recomendações que dei e que resolveram as principais queixas com um regresso progressivo a esta nova “normalidade” no contexto da pandemia COVID19.

"a solidão dos idosos já era uma verdadeira “pandemia” antes desta que vivemos… E não podemos deixar de usar estes alertas para gerarmos mudança e exigirmos melhores cuidados para os nossos idosos"

No entanto, não nos podemos esquecer que como sociedade, a solidão dos idosos já era uma verdadeira “pandemia” antes desta que vivemos… E não podemos deixar de usar estes alertas para gerarmos mudança e exigirmos melhores cuidados para os nossos idosos, para que não vivam a dor da solidão. São questões a resolver pela raíz… Há que ponderar, pensar e tentar colocar em práticas projectos educativos que aproximem as crianças dos idosos e lhes transmitam valores que as sensibilizem para, em adultos, não se distanciarem do dever de amor que a todos deve compelir para acompanharmos os nossos familiares, amigos ou vizinhos mais velhos ou mais frágeis. Esta é a base de um projecto internacional muito interessante, até no âmbito dos cuidados paliativos: o movimento das cidades compassivas.

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Métis: O que a faz mover-se na direção dos Cuidados Paliativos?

Dra. Ana Pacheco:

"...durante o final da faculdade, tinha o rosto dela e provocava em mim um desejo de fazer mais e melhor pelas pessoas que enfrentam diagnósticos ameaçadores e que precisam de ser apoiadas para viver e continuarem a “ser pessoa”, para além da doença..."

A vida tem-se desenhado de forma espontânea e coerente ao longo da minha trajetória. Desde sempre que sinto que cada passo, cada encontro, cada experiência tem tido um propósito que mais tarde compreendo. Os Cuidados Paliativos apareceram na minha vida dessa forma. Decidi ser médica durante o ensino secundário. Uma professora e grande amiga minha foi a inspiração para ter a certeza dessa missão. Perante a sua doença, manteve, até à sua morte, uma espiritualidade e sentido de dignidade que se espelhavam no sorriso e olhar com que enfrentava a vida. Acompanhei de perto a sua trajetória. A sua perda foi vivida intensamente por mim; cada doente, durante o final da faculdade, tinha o rosto dela e provocava em mim um desejo de fazer mais e melhor pelas pessoas que enfrentam diagnósticos ameaçadores e que precisam de ser apoiadas para viver e continuarem a “ser pessoa”, para além da doença. O que sempre mais me atraiu na Medicina foi a relação médico-doente, a compreensão da natureza, consciência e espiritualidade humanas, o privilégio da confiança que os doentes depositam em nós – tudo isto, podendo ajudá-los a enfrentar momentos de particular fragilidade ou simplesmente acompanhá-los ao longo da vida de modo a manterem-se saudáveis. Segui a especialidade de Medicina Geral e Familiar por me permitir esta amplitude de abordagem e durante a minha formação tive finalmente a oportunidade de fazer um estágio em Cuidados Paliativos, por sentir que era uma área essencial, mas negligenciada no panorama da saúde e, como tal, uma lacuna da nossa formação pré-graduada. Não tinha dúvidas que me marcaria enquanto profissional, mas fez mais: definiu-me e orientou-me para perseguir formação avançada e exercer também nesta área da Medicina que, em Portugal, não é uma especialidade médica ainda, mas sim uma Competência da Ordem dos Médicos, atribuível mediante vários critérios que comprovem a formação avançada e experiência profissional na área.

"Existem muitos mitos associados aos Cuidados Paliativos (CP), uma cultura de medo da morte."

Existem muitos mitos associados aos Cuidados Paliativos (CP), uma cultura de medo da morte. Entre os profissionais de saúde são muitos os que ainda acham que referenciar para CP deve ser só mesmo no final de vida, porque se for antes se retira a esperança aos doentes. Na sociedade existe o mesmo mito, o mesmo desconhecimento sobre o que são CP. As pessoas ouvem falar em CP e desencadeia-se uma cascata de receios e atitude defensiva: “não, nem pensar, ainda não vou morrer”; “não, isso vai matá-lo mais depressa, sem esperança”; “vamos evitar falar do assunto, ele não precisa de saber, ainda perde a esperança”; “Morfina? Mas é para morrer mais depressa?”. É urgente desmistificar estes preconceitos na sociedade e dentro das classes profissionais da saúde e serviço social. Os Cuidados Paliativos não são exclusivamente cuidados em fim de vida; são cuidados holísticos à pessoa que enfrenta um diagnóstico potencialmente ameaçador da vida ao longo da trajectória da doença, com o objectivo de acompanhar desde as fases iniciais para que a pessoa e a sua família se vão adaptando e preparando para tudo o que for necessário; antecipar e capacitar para os desafios que poderão vivenciar; promover uma vida activa e digna, de acordo com os desejos e crenças do doente e seus cuidadores. Tudo isto, juntamente com o controlo de sintomas para melhorar a qualidade de vida, contribui para minimizar ou dissipar o sofrimento associado. Podemos e devemos começar a acompanhar o doente quando ainda é acompanhado por outras especialidades médicas, mesmo estando a fazer terapêutica dirigida ou modificadora da doença. E continuamos a acompanhar quando essas terapêuticas deixam de ser possíveis. Não ajudamos a morrer. Ajudamos a viver até que a morte natural aconteça, tentando sempre que possível que seja no local desejado pelo doente, seja numa unidade de internamento ou no domicílio. Os CP não antecipam nem atrasam a morte; respeitam-na como parte do processo da vida humana. Das frases mais duras e menos correctas que se ouve tantas vezes dirigidas aos doentes é, por exemplo, “Já não há nada a fazer”. Isto representa uma sentença de morte, um desinvestimento e abandono do doente à sua “sorte”, à sua doença. Há sempre algo a fazer, é preciso é ajudar a assimilar que em termos curativos pode não haver, mas que em termos de ajudar a pessoa a “ser pessoa” até ao final há muito a fazer e é essa esperança que é abordada em CP.

Há sempre algo a fazer, é preciso é ajudar a assimilar que em termos curativos pode não haver, mas que em termos de ajudar a pessoa a “ser pessoa” até ao final há muito a fazer e é essa esperança que é abordada em CP.

A morte não pode continuar a ser encarada por muitos como uma derrota da medicina. A morte não pode nem deve ser escondida debaixo do tapete na sociedade, começando logo pela infância… É preciso explicar e falar de forma natural sobre a morte que a todos acontecerá um dia. E isto começa com coisas tão simples como explicar a uma criança que o seu animal de estimação faleceu em vez de o substituir ou se dizer que fugiu; ou permitir que um neto vá acompanhando um avô doente e compreenda que a vida se vai desvanecendo aos poucos e permitir-lhe que se despeça dele no funeral, se a criança assim o desejar (nunca forçar em qualquer que seja o sentido). Há muito caminho a percorrer ainda, mas nós temos que ser agentes da mudança, para que haja mais empatia, mais compaixão, mais cuidado para com os doentes mais frágeis nos centros de saúde, nos hospitais, nos lares, no seio das famílias, na sociedade em geral; o tal movimento das Cidades Compassivas que mencionei anteriormente, por exemplo. Por isso, respondendo à pergunta, o que me move a trabalhar em CP é o enorme privilégio de acompanhar estas pessoas em situação de grande fragilidade e sentir que lhes permitimos e às suas famílias terem uma vida digna e com o máximo de qualidade possível, ressignificando o seu sofrimento e o sentido das suas vidas até ao fim. E isto é absolutamente gratificante para mim. Se nos dói por vezes vivenciar certas situações e arranca algumas lágrimas? Claro que sim, somos humanos a tocar outros humanos. Mas são maioritariamente lágrimas de missão cumprida, que me movem a fazer mais e melhor a cada dia, a cada doente. A nossa sociedade será mais evoluída quando for mais compassiva e todos os cidadãos puderem ter acesso a CP; actualmente apenas cerca de 30% da população com necessidades paliativas tem acesso a estes cuidados no SNS. Daí que a despenalização ou legalização da eutanásia neste contexto não nos pareça uma discussão honesta para com a população, porque uma escolha só pode ser livre e informada quando a pessoa não está condicionada por um intenso sofrimento para o qual não lhe foi dada uma resposta alternativa. Primeiro os CP deveriam estar acessíveis a qualquer cidadão e só depois se poderia debater a questão da eutanásia. Mas isto já seria outra pergunta e outra resposta com muitas considerações e reflexões a fazer, pelo que é melhor terminar dizendo que, como eu, muitos profissionais de gerações anteriores e cada vez mais profissionais da minha geração começam a ver a importância dos CP e a quererem implementar mudanças neste sentido. Acredito que faremos cada vez mais diferença na vida dos doentes, famílias, cuidadores e sociedade em geral ao desenvolvermos a filosofia dos CP em Portugal.

 

Métis: A relação médico-doente, desafia atualmente a UNESCO a reconhecê-la como Património Cultural Imaterial da Humanidade, sendo esta iniciativa levada a cabo pela Ordem dos Médicos. A seu ver, quais os fatores que a fizeram desvalorizar em determinada época?

 Dra. Ana Pacheco:

"Concordo em absoluto que a relação médico-doente é um património inestimável da Humanidade. É a ferramenta terapêutica mais importante dos cuidados de saúde."

Concordo em absoluto que a relação médico-doente é um património inestimável da Humanidade. É a ferramenta terapêutica mais importante dos cuidados de saúde. Sem uma relação de confiança com o doente, qualquer abordagem será menos eficaz e potencialmente com menor adesão por parte do doente. E essa relação desenvolve-se com o olhar, com o toque, com o sorriso, com a comunicação empática e com uma postura de abertura e atenção à pessoa que a nós recorre, desde o momento em que a vamos buscar à sala de espera, onde tantos receios e ansiedades pairam muitas vezes.

"a evolução tecnológica que a muitos entusiasma e que, sem dúvida, permite prestar mais e melhores cuidados, mas que não poderia nunca ser um substituto da relação e do exame objectivo."

Existem vários factores que durante longos anos têm vindo a fazer danos na relação médico-doente: a enorme sobrecarga de consultas diárias para cada médico; a burocracia imensa que nos ocupa as mãos em vez de vermos doentes; sistemas informáticos em saúde pouco eficientes que nos obrigam a passar mais tempo a olhar para o ecrã do que para o doente; o stress e falta de condições cumulativas que se vivencia no SNS; a evolução tecnológica que a muitos entusiasma e que, sem dúvida, permite prestar mais e melhores cuidados, mas que não poderia nunca ser um substituto da relação e do exame objectivo.

"Mas por outro lado, a população deve também tentar respeitar o enorme esforço que os profissionais de saúde fazem diariamente para dar a melhor resposta possível nas condições precárias que existem,..."

Como em tudo na vida, precisamos de encontrar um equilíbrio entre as várias dimensões da nossa vida e os vários instrumentos ao nosso dispor. A medicina precisa de reconquistar a confiança e o apreço da população que servimos, gerando, através dos mecanismos políticos, melhores condições de trabalho e mais tempo para os profissionais dedicarem aos seus doentes; para isso é preciso vontade política…Mas por outro lado, a população deve também tentar respeitar o enorme esforço que os profissionais de saúde fazem diariamente para dar a melhor resposta possível nas condições precárias que existem,...porque esse desgaste diário tem um grande impacto nos profissionais, nos médicos, e é agravado pelas atitudes menos correctas dos utentes para connosco e pelo “ataque cerrado” na comunicação social, com informações que nem sempre correspondem à verdade e vão moldando desfavoravelmente a opinião pública. Remar contra a maré nunca é uma estratégia com bons frutos a longo prazo. Precisamos de uma reforma urgente no SNS. Precisamos que a tutela nos ouça.

"Enquanto tal não acontece, cabe a cada um de nós fazer o seu melhor no quotidiano da actividade clínica e isso, para mim, sem dúvida que começa ao estabelecer e construir a cada contacto uma relação terapêutica de confiança."