Diálogo com Dra. Clara Cardoso

Dra. Clara Cardoso
Gerontóloga
Intervenções Assistidas por Animais
Ladra Comigo (http://www.ladracomigo.pt/)

A interação social com o sénior que precisa do cuidado de terceiros, pode ser funcional, tendo uma tarefa de cuidado como propósito, ou totalmente social, sem uma utilidade aparente e na qual se vivencia o prazer da interação pela interação.

Sabemos no entanto que a comunicação/interação com idosos cuja palavra já não é o veículo de comunicação mais eficaz, nem sempre é fácil e por vezes até se torna difícil extrair um sorriso…E eis que aparece um cão…coloca uma pata delicada num cólo, abana a cauda e permanece com o olhar atento nos olhos do humano sénior e uma interação mágica emerge…

Métis: Afinal que competências sociais têm os animais que nós humanos não temos, fazendo despertar de forma mais ágil, comportamentos comunicativos por parte do adulto maior que vive com dependência/s?

Dra. Clara Cardoso: A grande vantagem da presença do animal nas intervenções, é a de este ser um facilitador da comunicação.

Na primeira vez que realizamos uma sessão num lar, não conhecíamos previamente, nem colaboradores, nem utentes. Apresentaram-nos o grupo de utentes e informaram-nos que estavam todos muito interessados. A sessão correu muito bem, todos falaram muito uns com os outros e riram…divertiram-se.

No final da ação, a Diretora veio ter connosco, muito contente e surpreendida diz-nos que escolheu aquele grupo de utentes pois não se davam bem uns com os outros e quando se falavam, era para se ofender mutuamente.

Como não conhecíamos o histórico, também nós, ficamos entusiasmadas com o que tinha afinal acontecido. O cão proporcionou o relaxamento e humor necessários para se descontraírem e falarem sobre os animais de estimação que tinham tido e como se chamavam…O cão ajuda na interação grupal.

O facto da comunicação com o cão ser muito elementar, também é fulcral para a interação bem sucedida. O cão não julga! Sabemos que muitos idosos têm receio de errar quando aderem às atividades propostas, ou porque percebem limitações físicas, de memória, ou outras…com o cão, o receio de errar não existe, sabem que o animal está ali para eles, não está lá para os julgar e/ou corrigir.

Os idosos fazem um gesto, um olhar e têm um animal a abanar a cauda com uma alegria enorme e a pedir festas, reforçando ainda mais, as iniciativas de interação dos utentes mais velhos. A presença do cão nestas intervenções, promove uma maior auto-estima, confiança e motivação para aderir a atividades. E nas situações em que pessoas vivem com demência, a critica, julgamento e contra-argumentação, são dispensáveis.

Os nossos cães estão treinados para reagir positivamente (sentar, deitar, abanar cauda, dar a pata…) a pequenos gestos e olhares dos idosos, não porque lhes obedeçam, mas porque nós estamos lá a dar-lhes as instruções. Os idosos reconhecem no comportamento do cão, o resultado da sua iniciativa de comunicação.

Lembro uma senhora que tinha um problema nas cordas vocais pelo que a sua linguagem verbal, estava profundamente afetada. Fazia um esforço enorme para se fazer entender e os funcionários e técnicos da instituição insistiam para que ela repetisse a fala para melhor a entenderem…mas com o cão, bastava este chegar e o esforço dela tinha uma consequência…tinha voz.

Encaminhei esta senhora para seguimento com uma terapeuta da fala que lhe deu um livro para crianças, pois sistemas de comunicação para adultos, ainda não há. Acabámos por desenvolver um sistema com diversos símbolos que lhe pudesse servir para a sua vida para além das sessões de terapia, para a sua interação com outros.
Esta senhora é também a razão pela qual, decidi enveredar pela licenciatura em Terapia da Fala.

Embora nos perguntem se trabalhamos com gatos, a nossa resposta é negativa. Trabalhamos com cães. O treino de um gato seria mais demorado e muito diferente…teria de ter um temperamento muito especial, para além de ser raro o gato que aprecie ser tocado na totalidade do seu corpo.

| Leonor Cerqueira – nesta fase do diálogo, tive o prazer de conhecer as cadelas Gemma, Laica e Milú que fazem dupla com a Dra. Clara na intervenção. Recuperavam literalmente as energias!|

Métis: A seu ver, o que é necessário realizar, para se ver expandido o trabalho destes companheiros, junto da população sénior que reside em instituições e dos seus cuidadores?

Dra. Clara Cardoso: A Ladra Comigo nasceu há 6 anos, e na altura, ainda se ouvia falar pouco da intervenção com animal. Batemos à porta de instituições e se deparávamos com um rececionista que não gostasse de cães, a porta fechava de imediato e nem tínhamos oportunidade de apresentar o projeto à direção para posterior decisão. Portanto, a abertura à intervenção com animal é um primeiro fator a considerar.

Um outro, é a questão monetária. Fizemos muitas e muitas demonstrações de sucesso e quando chegava a fase de decisão sobre a integração da intervenção na instituição, não havia dinheiro. Ora para além do conhecimento que é necessário ter para a execução desta atividade, também há custos materiais bem visíveis, como deslocações, alimentação e cuidado com o animal, os materiais com que se trabalha, o limite dos utentes a incluir na sessão de grupo…
Cada sessão tem 45 min e só faz sentido a intervenção, se houver continuidade no tempo, com frequência semanal ou quinzenal. Um único encontro é obviamente um momento prazeroso, mas não produz o efeito pretendido.

O impacto positivo sobre os cuidadores profissionais também é evidente. Tomamos consciência disso quando há 6 anos, na APPACDM do Porto, no fim de uma sessão, o corpo de psicólogos veio ter connosco, informando-nos que o efeito da sessão sobre os utentes foi o que esperavam, mas ficaram surpreendidos sobre o efeito nos funcionários. Alguns deles, nunca os tinham visto sorrir e fizeram-no na presença do cão facilitador. Ficamos comovidas com a extensão do impacto no bem-estar, não só dos utentes, como dos outros agentes, nas instituições.

O que contribuiu para agilizar a tal abertura a esta intervenção, parece-me que foi a comunicação social. Ao longo destes 6 anos, estivemos em quase todos os canais televisivos e tínhamos muitos contactos logo após o nosso testemunho. Recebemos muitos convites para apresentar a intervenção animal em universidades e organismos públicos, o que também ajudou muito. Algumas Juntas de Freguesia apoiam o nosso trabalho ainda hoje, embora este apoio seja mais vincado quando o público alvo é a criança ou o adulto com deficiência. Ainda se pode alargar este benefício aos idosos.

Todavia, posso afirmar que face a 2016, a sensibilidade para esta atuação, é completamente diferente, para melhor! Tivemos muitos nãos no nosso trajeto, muitos transformaram-se em sins, uns tempos depois. Um dos nãos, marcou-nos muito porque prendeu-se com o travão a uma apresentação nossa, numa instituição, aos seus órgãos diretivos. Este travão foi efetuado pelo rececionista “que não queria cá animais”. Mais tarde, através da Ânimas, fomos a essa mesma instituição e implementamos sessões com o animal e com muitos bons resultados. Gostamos de passar orgulhosamente por ele!
 
Métis: Sabemos que um cuidador, cuida tanto melhor, quanto mais ele próprio se sabe cuidar, conhecer suas forças e limites. Relativamente ao animal que cuida, para que este seja feliz no seu “trabalho”, quais são as atenções mais importantes a considerar e a evitar?

Dra. Clara Cardoso:
1º Certificação da dupla humano-cão.
Faço questão de sublinhar esta componente porque infelizmente há profissionais na área, a trabalhar sem formação.

| Leonor Cerqueira – interrupção para alimentação das cadelas Gemma, Laica e Milú!|

É muito importante, a competência base que a Ânimas forma e treina e que é a comunicação com o nosso cão e a comunicação do nosso cão connosco. Isto é, se a comunicação for de excelência, quando o cão se encontra desconfortável por uma série de possíveis razões, ele vai dar sinais ao dono antes de rosnar e/ou morder. Esses sinais, são diferentes de cão para cão e podem ser subtis, como coçar, lamber o nariz ou patas, desviar olhar…ao observarmos esses sinais, a boa prática corresponde à retirada do animal do local, para um intervalo, um descanso, uma pausa…portanto, temos de conhecer muito bem o animal, temos de viver com ele e se suspeitamos que ele não está bem nesse dia, não pode ser sujeito a trabalhar…mais uma vez e infelizmente, chega-nos ao conhecimento, profissionais desta área a utilizar cães do canil. Não só representa uma violência para o animal como representa um risco. A certificação da dupla humano-cão, garante segurança e qualidade do serviço.

Neste momento, a Ânimas é a única entidade que está credenciada para o efeito e o seu curso integra uma forte fundamentação teórica e trabalho de prática. No início desta certificação, a Ânimas efetua uma entrevista ao cão da potencial dupla a certificar no final da aprendizagem. Esta entrevista encerra um teste à reação do cão a uma prova “stressante”. O cão não pode apresentar qualquer grau de agressividade. Se tal acontecer, o cão é excluído do curso…o seu dono, poderá continuar se tiver um outro cão que passe neste teste.

Sublinho ainda que na Ânimas, somos todos voluntários e o montante recebido através dos cursos que proporciona ao público, revertem na totalidade para a cedência gratuita de cães de assistência para o acompanhamento de crianças com autismo e adultos com deficiência motora e alimentação dos cães. Também as  famílias de acolhimento que socializam o animal nos seus primeiros tempos de desenvolvimento e que posteriormente são treinados pelos instrutores, fazem-no de forma voluntária.

O cão de intervenções é o nome técnico que se dá ao cão que integra a Educação, Atividade e/ou Terapia assistida com animal, sendo esta última, preferencialmente realizada por profissional de saúde.

2ª Na primeira visita às instituições é necessário dar espaço para o cão de intervenções conhecer o seu ambiente, cheirar coisas e pessoas.
Nós devemos sempre, nesta fase de exploração do cão, colocarmo-nos como barreira entre ele e os utentes, pois se houver um movimento menos apropriado por parte dos utentes, garantimos a integridade do animal. Se necessário, proporcionamos um intervalo ao cão e regressamos quando o sentirmos em condições.

3º Limitar o nº de utentes no grupo de trabalho do cão de intervenções.
Nós, humanos, chegamos a um espaço, e é-nos fácil e rápido, perceber quantas pessoas estão presentes. Para o cão, há um dispêndio grande de energia que se reflete no tempo necessário a cheirar cada um dos participantes. Por esta razão, por norma, limitamos os grupos à participação de 5 utentes, sendo que com a Covid 19, este nº decresce para 3. Para evitar o risco de contágio, investimos mais tempo em desinfeção de mãos antes e após o toque no animal, desinfeção de todos os materiais entre utilizações…isso protege os seniors e os humanos da dupla! Não permitimos atualmente que o cão, lamba a cara dos utentes…algo que é natural no seu comportamento de aproximação.

4ª O cão só faz duas sessões de 45 min. por dia.
Se fizerem estas duas sessões, no dia seguinte não trabalham. Por isso eu tenho 3 cadelas. Garanto-lhes um trabalho em equilíbrio, com os períodos de pausa necessários e dou resposta às necessidades.
Há pessoas a fazer exatamente o contrário o que viola a integridade do animal e coloca em risco a segurança e qualidade do serviço prestado.

5º Não há necessidade de desinfetar o animal.
O banho dos cães, tem a frequência mensal e eventualmente quinzenal, devido a uma gordura protetora que não devemos extrair constantemente. O nosso cuidado reside na desinfeção das patas quando chegam ao local de trabalho, lavando-as com um shampoo com clorexidina e no cuidado humano de desinfeção das mãos antes e após o toque no animal.