Diálogo com Dra. Graciete Dias

Enfermeira, Psicóloga Social e com vida, marcadamente vincada na área da intervenção social

Métis: Como podemos aproveitar a pandemia para catapultar a humanização dos cuidados aos idosos com dependência?

Dra. Graciete Dias: A prestação de cuidados humanizados a quem deles necessita, e em qualquer fase da vida, obriga à disponibilização de um conjunto de conhecimentos específicos, dos cuidados a prestar e das interações comportamentais que se podem desenvolver no momento da prestação dos cuidados.

Centrando o nosso pensamento nos cuidados a pessoas idosas e para que os cuidados sejam humanizados, não podemos deixar de considerar:

O efeito da representação social da pessoa idosa (valorizada ou/desvalorizada socialmente) que pode influenciar o comportamento do cuidador, na relação com a pessoa a cuidar;

Em Portugal a representação social de pessoa idosa é negativa. Esta minha afirmação é suportada nos resultados obtidos nos estudos que realizei no âmbito do doutoramento em psicologia social. Se observamos os conteúdos dos discursos sobre pessoas idosas na comunicação social, facilmente nos apercebemos da desvalorização social das pessoas com mais idade.

Para que os cuidados sejam humanizados é necessário a formação específica sobre os cuidados a prestar;

Importa também considerar o conhecimento das interações que se podem desenvolver durante a prestação dos cuidados entre os dois seres humanos, o que cuida e o que necessita dos cuidados, muitas vezes geradoras de comportamentos, resultantes das características de personalidade de cada um e dos estados emocionais no momento.

A PANDEMIA o que nos pode trazer de novo!? As informações que nos chegam sobre o impacto da pandemia num conjunto significativo de pessoas idosas a residirem em Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), designados por lares, são no nosso país e a nível europeu, muito angustiantes.

A sociedade jamais pode esquecer a grande contaminação das pessoas a residirem em lares, bem como a elevada taxa de mortalidade em pessoas idosas.

MUDANÇA ESPERADA! Que a incerteza, o medo, e a angústia trazidos por esta pandemia, tenha um efeito mobilizador da sociedade, na direção da valorização das pessoas com mais idade.

Se isso acontecer, vamos ter decerto, mais profissionais de saúde a cuidar das pessoas idosas nos lares, já que a maioria dos residentes têm doenças crónicas,

Vamos ter também, espaços de acolhimento devidamente dimensionados, organizados e mais humanizados.

Quem cuida deve saber cuidar em todas as dimensões. O ser humano necessita que os

cuidados que lhe são prestados se fundamentem nos conhecimentos adequados e que o tratem com afeto, consideração e respeito.

Não podemos esquecer que cada utente tem a sua própria identidade, personalidade e estado emocional variável.

Cuidar com humanidade é decerto, uma prática que pode reforçar o sentido de realização pessoal e profissional,

valorizando a forma como se trabalha, e consequentemente o reconhecimento dos utentes e pares.

O cuidar com humanidade, minimiza o sofrimento, a angústia e a incerteza do dia-a-dia da pessoa que necessita do cuidado. O cuidador é um amigo que se aproxima para ajudar. O envolvimento da família/amigos em todas as dimensões do cuidar é determinante para o bem-estar do utente. A empatia desenvolvida entre o utente/família e o cuidador é fundamental para o tratamento e tem um efeito extraordinariamente positivo na minimização do sofrimento e da incerteza dos dias de vida que estão por viver.