Diálogo com Dra. Isabel Viana Gomes

Dra. Isabel Viana Gomes
Psicóloga e Voluntária em Intervenção Psicossocial

1.Métis: Quando falamos de humanização, falamos de um processo que nos torna humanos. Para si, que comportamentos demonstram que estamos a ser humanos?
 
Dra. Isabel Viana Gomes: Estamos a ser humanos quando temos a capacidade de nos colocarmos na pele do outro, sendo empáticos com as suas circunstâncias de vida. Se a essa atitude interior intencional, ou natural, conseguirmos acrescentar a “arte” de comunicar com o outro, de forma nivelada, aumenta significativamente a probabilidade de um comportamento humanizado.
 
2.Métis: Sendo a sua matriz de formação académica, a psicopedagogia, em que idades se inicia aquele processo e qual o papel da escola nesta educação?
 
Dra. Isabel Viana Gomes: Na minha perspetiva, o processo inicia-se muito precocemente, não existindo uma idade muito determinada, dado que cada criança é um mundo e interage com outro mundo específico, a partir do momento do seu nascimento, primeiramente com o primado multissensorial com que vem equipada. A sua condição de total dependência como cria humana torna-a, desde logo, alvo de um processo de aprendizagem e condicionamento que, vai progressivamente marcando o processo do seu desenvolvimento humano.

Com a evolução, designadamente das novas tecnologias, verificada a partir do início dos anos 90 do século passado, foram introduzidos um conjunto de novos fatores de estimulação no processo educativo das crianças que as tornaram, porventura, mais suscetíveis a modelos comportamentais mais mediados por automatismos de funcionamento e menos humanizados. Assim sendo, a interação com os humanos adultos num registo de comunicação emocional, saiu prejudicada, do meu ponto de vista.

A entrada da Criança, na creche e jardim de infância, e escola como instâncias de socialização complementares das redes sociais naturais (ambiente familiar, vizinhança, amigos) constituem uma etapa importante no processo de aprendizagem da diferenciação entre o eu e o outro, a oportunidade por excelência da interiorização do nós. Nesses contextos, orientadas por profissionais da educação e através das dinâmicas de atividades lúdicas entre pares, são descobertas e exercitadas aquisições básicas e as competências que vão transformar paulatinamente o egocentrismo natural da criança, num mundo de múltiplas interações com outros seres que tendem a cooperar e a competir por atenção (tempo) afetos (comunicação), objetos (posse) e território (espaço).

Assim, se vão construindo modelos de relacionamento interpessoal, que os processos de amadurecimento e funcionamento das estruturas cognitivas e emocionais vão modelando, numa dinâmica de interação com o meio ambiente. Este é o autêntico laboratório da vida, onde as relações podem ser mais ou menos humanizadas e onde as crianças irão beber e interiorizar esquemas de funcionamento que vão estar na origem de atitudes e comportamentos mais ao menos ajustados às suas e às necessidades dos outros, com quem inexoravelmente têm de conviver ou apenas sobreviver, no caso das relações desumanizadas.
 
3.Métis: Empreender em causas sociais é um trabalho que requer uma liderança que dá valor ao papel do estabelecimento de ligações. Pode dar-nos alguns exemplos do papel mágico das ligações?
 
Dra. Isabel Viana Gomes: Empreender em causas sociais, só pode funcionar eficazmente se a missão se basear em valores que respeitem a pessoa humana e os seus direitos fundamentais, com especial relevância para a sua dignidade integral.

Partindo deste princípio, a organização e funcionamento do sistema de liderança a instalar, tem de focar-se nas sinergias que devem ser obtidas, a partir de ligações com parceiros identificados como potenciais cooperantes para se conseguirem os meios e recursos para atingir os objetivos da missão.

Se as parcerias encontradas tiverem origem em ligações por afinidade ou complementaridade de projetos ou por partilha de interesses legítimos e transparentes, com implicações sérias nas causas sociais envolvidas, havendo empenho e trabalho determinado, digamos que estão reunidas as condições para que a alma seja o segredo do negócio. E sim, porque não as causas socias serem encaradas como um negócio e de preferência de sucesso?

Se queremos um mundo melhor, com maior equilíbrio dos diferentes ecossistemas, a união de esforços tem de passar necessariamente pelo estabelecimento de ligações positivas e complementares, aos mais diversos níveis, desde os mais instrumentais até ao afetivo-emocional, onde residem muitos dos motivos relacionados com os índices de autêntico bem-estar (saúde) das pessoas.
 
Loriga, 13 de Junho de 2020