Diálogo com Dra. Luísa Cipriano

Assistente Social
Responsável pela Divisão de Desenvolvimento de Recursos Sociais da Câmara Municipal de Cascais

Métis: “Envelhecer melhor em Cascais”, para além de ser uma Plataforma que integra diferentes parceiros que refletem e agem em conjunto, com o propósito de proporcionar mais qualidade ao envelhecimento no município, é também um objetivo da Divisão Municipal que a Drª. Luísa Cipriano, superiormente dirige.

Nesta conformidade, encontra na resultante da presente pandemia, a oportunidade de catapultar a humanização dos cuidados às pessoas mais velhas com dependência?

Dra. Luísa Cipriano: Esta experiência de trabalho em parceria, é um património do território de Cascais. É um trabalho que temos vindo a desenvolver há muitos anos, há décadas e que produz resultados efetivos. No que diz respeito a esta Plataforma Envelhecer melhor em Cascais, o que se pretende, é um cuidado de excelência, às pessoas idosas e em situação de dependência que residem no concelho. Este é um enfoque muito importante desta parceria.

Temos hoje com esta pandemia, um desafio muito maior. Se até aqui, a questão da qualidade e da excelência do cuidado prestado às pessoas mais velhas em situação de dependência já era desafiante, neste momento é muito mais. Vamos precisar de nos reinventar.

Porque falamos de uma população muito vulnerável, neste contexto da Covid 19, estamos confrontados pelas orientações sanitárias, com as necessidades de confinamento e distanciamento social. Temos aqui um risco muito grande! Estas pessoas vivem muitas vezes, situações de isolamento e com ausência de suporte familiar; também as respostas sociais são insuficientes e não totalmente ajustadas às necessidades das pessoas.

Estamos perante a necessidade de criar um compromisso que permita observar as regras sanitárias, sem perder aquilo que na resposta implica, a presença, a empatia a relação com estas pessoas. Corremos o risco, em algumas circunstâncias, de ter um argumento falacioso que, porque temos de nos distanciar socialmente …sustenta comportamentos de ausência, e que favorecem o isolamento e a exclusão…porque muitas destas pessoas estão de facto agora mais isoladas.

Por isso, vamos ter de recorrer a plataformas que até hoje, eventualmente não usávamos. Vamos ter de pensar como vamos estar com estas pessoas de forma a que lhes possamos garantir um cuidado que seja à pessoa e não às pessoas, pois não há pessoas padrão e abstratas. Cuidado à pessoa concreta, com as suas necessidades e capacidades que também devem ser observadas. Prestar um cuidado às famílias, porque elas precisam. Aos cuidadores…importa também dar-lhes este suporte.

O que eu posso dizer neste momento é que o desafio é muito maior porque precisamos de continuar a humanizar as nossas práticas envolvendo nestas, todos os sujeitos que têm algo a ver com a prestação do cuidado.


Métis: Em concreto, o que implicaria essa humanização? O que gostaria de ver acontecer, que hoje ainda não se observa de forma amplificada?

Dra. Luísa Cipriano: Esta Plataforma e o trabalho que o município vem desenvolvendo em relação às organizações, tem-se focado bastante na capacitação dos profissionais, porque

temos esta convicção de que é através das pessoas e dos profissionais concretamente que se consegue um cuidado e intervenção de maior qualidade. E portanto, este enfoque na capacitação dos profissionais vai continuar.


Recentemente, desenvolvemos ações de formação no domínio da comunicação e daí esta relação com a Métis. E a comunicação é um fator determinante para a humanização das respostas. Nós queremos continuar a apostar nesta perspetiva de trabalhar a comunicação como ferramenta, pois a humanização das respostas tem de ser de facto trabalhada. Ela não está baseada num perfil de bem querer ou num perfil mais ou menos adequado. Exige ferramentas e acompanhamento.

Não basta também, no que diz respeito à formação, transmitir conhecimentos. É necessário também, acompanhar as pessoas e equipas na sua ação, para que elas sintam o suporte necessário.

Isto tem ganhos para as pessoas, equipas, organizações, porque impacta na qualidade do cuidado prestado e na sustentabilidade das organizações. Muitas vezes colocamos a questão:

...bom, mas como conseguimos conciliar a questão do cuidado sustentável, com aquilo que é acautelar a relação, uma relação mais empática? Isto é compatível, é possível e é sustentável. Seguramente mais sustentável do que uma visão mais economicista desta intervenção e trabalho.


Voltando à questão da pandemia, temos um outro desafio…pensando nas pessoas que exercem o apoio domiciliário, carregadas de viseiras, máscaras, luvas… quase uma esterilização do cuidado. Compatibilizar esta circunstância com a manutenção da relação, o afeto que é tao vital para estas pessoas que estão vulneráveis e dependentes, é uma exigência, mas que vale a pena superar.

Desde os cuidados domiciliários que sabemos que não respondem às necessidades das pessoas que estão em casa e aí pretendem continuar,

à necessidade de encontrar novos modelos de estruturas residenciais como por exemplo o co-housing, estruturas mais participadas pelas pessoas e onde estas não percam a sua identidade…são desafios sérios numa sociedade cada vez mais envelhecida.


Prepararmos o nosso envelhecimento…um outro desafio. É necessário haver condições para que cada um possa preparar de forma ativa e saudável, o seu envelhecimento que começa ainda no útero da mãe e não só aos 65 anos. A sociedade tem de pensar como isto pode ser possível e criar oportunidades de participação, otimizando as suas capacidades. Esta é uma vertente que já era importante para nós e que agora ainda se intensifica mais:

encontrar espaços onde as pessoas possam participar, dentro daquilo que são as suas capacidades ainda existentes. Muitas pessoas dependentes, têm capacidades, autonomia e, portanto, têm o direito de poder dizer de sua voz o que pretendem e quando isso não é possível, outras pessoas deverão zelar por si.
    
Métis: Quais podem ser os três maiores obstáculos a este trabalho de contínua humanização?

Dra. Luísa Cipriano:  
  1. Associar uma visão economicista aquilo que é a sustentabilidade das respostas. Apostar mais na quantidade que na qualidade. É necessário encontrar uma solução de compromisso que acautele a sustentabilidade financeira, com a questão da qualidade do cuidado e com a importância das relações que se estabelecem
  2. A rotina. É fácil as pessoas e profissionais, face a solicitações inúmeras que lhes chegam diariamente, poderem entrar numa perspetiva de rotina, sem espaço para a reflexão.
  3. A realidade vai muito à frente daquilo que nós conseguimos equacionar em termos convencionais e formais. Hoje, a nossa realidade em termos demográficos exigiria um outro tipo de respostas para além das existentes e a reformulação das que estão em presença. O que é oferecido pela Segurança Social e acordos de cooperação que são assegurados, permitem a sustentabilidade financeira das organizações, mas de facto, temos um portfolio de respostas que está hoje muito aquém daquilo que são as necessidades efetivas…temos “um fato que é feito à medida do botão” e isso viabiliza a sobrevivência das instituições, mas a realidade é outra!  Precisamos de repensar as respostas que são postas à disposição das organizações e que lhes permitam ser mais flexíveis; inovar e ainda assim acautelar a sustentabilidade."
  4. O “fazerismo”, necessidade de agir, ser rápido e por vezes não conseguir conciliar esta necessidade com aquela de dar o espaço necessário ao outro que por vezes não responde na medida das minhas expetativas…porque por vezes não tenho ferramentas em determinados domínios, acabo por não saber lidar com a resposta do outro e portanto o