Diálogo com Dra. Márcia Cruz

Dra. Márcia Cruz

Psicóloga, Sócia da AP | PORTUGAL- Language Services desde 1998

Enquadramento do diálogo: Profissão multitasking, auto-cuidado, atitude para aprendizagem de nova língua, humanização através de língua em comum

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Métis: Muitas vezes associamos a nossa capacidade multitasking, à de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Todavia, só empreendemos verdadeiramente numa atividade multitasking quando nos ocupamos de tarefas que utilizam os mesmos circuitos do nosso cérebro, ou seja, se estiver a lavar loiça e a falar com alguém, não se considera multitasking. Se estiver a ouvir alguém e a escrever ao mesmo tempo uma mensagem, mudo de tarefa e provavelmente perco qualidade na escuta e na escrita. Mas se estiver a escutar alguém numa outra língua e realizar a tradução simultânea, sim…é multitasking, pois estamos a utilizar os circuitos responsáveis pela linguagem num momento que é aquele e não outro. Fazê-lo com qualidade, implica ao certo, muito treino. Como se prepara um profissional nesta área, para exercer esta tarefa tão complexa, de escutar profundamente e articular essa mesma mensagem com rigor, numa outra língua?

Dra. Márcia Cruz: Quando se fala de tradução simultânea, na verdade estamos a falar de interpretação simultânea. Ou seja, devido à imprevisibilidade do discurso de quem está a ser interpretado, quer seja no conteúdo quer seja na velocidade, o interprete é forçado a valorizar o significado do discurso, interpretando corretamente a mensagem e não traduzindo à letra a totalidade do discurso. O intérprete só tem tempo suficiente para apreender a mensagem antes de a transmitir ao destinatário pelo que tem que se centrar no significado em detrimento da integralidade do discurso. Depois, ainda existem diferentes tipos de interpretação: de conferência, de acompanhamento, consecutiva, simultânea.

Ora, só esta exigência, por si só, necessita que a pessoa que se propõe a ser interprete, tenha um conjunto de caraterísticas que facilitem este processo. Não basta conhecer bem uma língua.

A preparação de um intérprete, em Portugal, começa por uma formação superior em determinada(s) língua(s) e posteriormente um mestrado ou pós-graduação em interpretação que requer prática em laboratório obviamente. Mas para que fique mais claro tudo o que envolve a performance de qualidade de um intérprete, posso dar, a título ilustrativo, o exemplo das exigências colocadas aos candidatos a interpretes na UE. Os candidatos devem ser comunicadores natos, terem capacidade de interpretar ao mesmo tempo que ouvem o orador, facilidade em expressar-se, boa dicção, vasta cultura geral para compreender questões complexas, capacidade de reação e adaptação pois existem situações imprevisíveis, conseguir trabalhar sobre pressão, individualmente e em equipa. Por norma, o interprete, possui uma combinação linguística constituída por línguas ativas – aquelas em que o intérprete se exprime e línguas passivas - aquelas a partir das quais interpreta.

Sem dúvida, que o conhecimento das línguas que utiliza, o treino, a concentração e resistência, são caraterísticas que quem opta por esta profissão, tem que manter sempre ativas. Não é com o término de uma licenciatura que “nasce” o intérprete, é um trabalho desenvolvido com a especialização e treino.

Métis: Desempenhar a tradução simultânea requer uma atenção extrema que provavelmente exigirá o respeito por momentos de descanso nutritivos. Que tipo de estratégia de auto-cuidado deve ter um tradutor interprete, para que se possa perceber em pleno para o exercício da sua atividade?

Dra. Márcia Cruz:

Numa interpretação simultânea dificilmente estará um só intérprete. Ou seja, durante uma interpretação, pelo menos, estarão dois interpretes para a mesma língua ativa/passiva precisamente porque o nível de esforço requerido é imenso.

E os interpretes em interpretação simultânea, revezam-se de 30 em 30 minutos permitindo a pausa necessária para retomar a função com a concentração e capacidade de resposta adequada. Quando precisamos de um intérprete é porque queremos, verdadeiramente, compreender tudo o que está a ser dito e ficar conhecedor do que se está a discutir. Por exemplo, numa interpretação consecutiva, o interprete não deve ouvir mais que 15 minutos seguidos do discurso do interveniente e vai retirando notas. Na preparação da interpretação, é solicitada a temática em análise, documentos que possam existir de suporte, para que o interprete possa munir-se do vocabulário específico e imbuir-se na temática antes do evento ocorrer.

Métis: No envelhecimento menos feliz e em fases avançadas de alguns processos de doença, muitas vezes, enquanto cuidadores, deparamo-nos com dificuldades de comunicação, pois parece que já não há uma língua comum entre mim e o outro. Passando de novo para a sua atividade e pedindo-lhe agora que imagine que vai aprender uma nova língua, que aspetos teria em conta para a conseguir absorver e entender de forma mais facilitada?

Dra Márcia Cruz: Indo ao início da sua questão, quando estamos a tentar comunicar com alguém jovem ou maior (como diz) que apresenta dificuldades de comunicação, é este verdadeiro interesse de me aproximar do outro que possibilitará comunicar/relacionar-se.

Quando nos propomos aprender uma nova língua, a primeira coisa a fazer é libertar-se de preconceitos, pudores e vergonha. Ter bem presente que quando me proponho a aprender uma língua, estou num processo de desenvolvimento e aproximação ao outro e ao Mundo. Deixo de estar centrada em mim mesma, estou a tentar compreender e fazer-me compreender pelo que o interlocutor já fica satisfeito com esse esforço.

Por outro lado, ler, na língua que quero desenvolver, ver filmes/documentários, nessa língua é sem dúvida facilitador, mas interagir de forma menos formal com interlocutores que falam a outra língua, é prazeroso e rapidamente promove a aquisição dessa língua. Conhecer bem a(s) cultura(s) onde essa língua é falada levará a um domínio do significado que é muito mais do que conhecer as palavras.

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A Métis espera ter-lhe proporcionado um bom momento de leitura e reflexão e agradece profundamente a conversa e partilha deste testemunho, a Dra. Márcia Cruz!