Diálogo com Dra. Raquel Frade

Assistente Social

Coordenadora numa Instituição de apoio aos idosos

“Se não estiveres bem, não consegues cuidar bem. Por isso, cuida-te!”

 

 

Métis: Como podemos aproveitar a pandemia para catapultar a humanização dos cuidados aos idosos com dependência?

 

Dra. Raquel Frade: Para alcançar um bom cuidado aos idosos, preciso de abordar a importância da equipa de cuidados e dos seus diversos elementos. Este tempo de pandemia vem tornar ainda mais exigente o papel do cuidador e vem possibilitar dar voz ao que eles fazem de tão bem. Sejam estes, cuidadores formais (profissionais) ou informais (familiares ou amigos dos idosos com dependência).

 

Para mim, enquanto cuidadora que assume responsabilidade na coordenação e desenvolvimento da equipa de cuidados, penso que um dos aspetos mais importantes desta pandemia, foi o alerta, a consciência para a necessidade do autocuidado.

Sem o auto-cuidado por parte do cuidador, não há cuidados humanizados. Caso contrário, estaremos a executar tarefas, a cumpri-las em grande número, mas sem a qualidade desejável.

Quando me refiro a auto-cuidado do cuidador, refiro-me a medidas simples mas fundamentais para esta época, nomeadamente:

ter um bom descanso, pequenas pausas ao longo do dia, boa alimentação, dedicar tempo, mesmo que pouco, a coisas que gostamos de fazer para além do trabalho, dedicar tempo a estar com outros de quem gostamos, mesmo que seja ao longe…é preciso encontrar e viver formas para estarmos em equilíbrio.

 

Se por um lado, a nível profissional, houve um esforço para, em pouco tempo, aprender o que tínhamos de conhecer sobre o vírus e acionar as medidas de proteção para a prestação de cuidados em segurança, também, como assistente social, sou muito sensível às vidas pessoais destes profissionais que também tiveram de ser ajustadas. Filhos a precisar de mais apoio escolar, familiares com os quais se deixa de conviver, coisas que estavam planeadas e que deixam de estar para serem adiadas. Todas estas questões são importantes de gerir e apoiar para que quem é alvo do nosso cuidado, não seja prejudicado.

 

No nosso Centro, temos disponibilizado esse tempo para o ajuste das vidas pessoais dos elementos da nossa equipa de cuidadores.

 

Palavra de ordem: flexibilidade!

 

Métis: Diz que a consciência para a importância do auto-cuidado decorre da pandemia. Poderemos ficar a pensar como é possível ter essa consciência numa altura em que quase não dá para respirar! Como decorreu esse processo de consciencialização convosco?

 

Dra. Raquel Frade: Não cheguei a esta conclusão no dia 13 de Março. Foi preciso vivermos duas semanas alucinantes para que essa necessidade e consciência, surgissem e para as quais foram criadas estratégias individuais e de equipa.

 

Tivemos um desgaste enorme que nos fez pensar de um outro modo – mas, ainda, é um processo em construção, felizmente, agora, mais estruturado. O Centro Social tem duas valências: a de Centro de Dia e a de Serviço de Apoio Domiciliário e, tal como as outras instituições, tivemos de passar a operar integralmente em Apoio Domiciliário. A redefinição que é requerida é muito minuciosa e implica estarmos menos tempo com os nossos utentes, embora os façamos saber que estamos contactáveis para que eles sintam que podem, a qualquer momento, ter a iniciativa de acionar uma aproximação à distância.

 

Vivemos o medo, a ameaça de algo que não se vê e que podemos passar a outrem. A suspeição sobre quando vem alguém do estrangeiro ou quando alguém espirra ou tosse…

Com tudo isto, acionamos algumas medidas de apoio emocional como por exemplo: realizar diversas partilhas ao longo das semanas para que o vírus passasse a ser tratado por tu.

Em cada semana, duas colaboradoras iam de férias por uma semana. Foi bom verificar que estes cuidados com o auto-cuidado resultaram em melhor disposição, maior disponibilidade e calma.

Palavras de ordem: Encontrar tempo para o auto-cuidado! Nós não funcionamos humanizadamente se estivermos em piloto automático…isto é uma mensagem muito séria.

 

As pessoas podem pensar que fazem muito, mas o que é um facto, é que as pausas certas, nos momentos certos, acabam por proporcionar um melhor rendimento e qualidade no desempenho. Ficamos mais pacientes, tanto com os colegas, como com os nossos utentes e com outras solicitações que nos chegam.

 

Palavras de ordem: Investimento no auto-cuidado do cuidador.

 

Métis: Colocou o ênfase no auto-cuidado do cuidador como sendo uma medida de humanização que é facilitada pela pandemia. Acrescentaria alguma outra?

 

Dra. Raquel Frade: Sim…considero que em determinada altura, a comunicação social privilegiou a importância de algumas profissões em detrimento de outras. Não me revejo nesta forma de ver as profissões, porque as considero todas, muito importantes.

Mas quero destacar o papel dos cuidadores familiares, anónimos, dos quais se fala tão pouco e que poderão vir a ser mais reconhecidos. Ainda…acrescento o esforço enorme dos cuidadores profissionais em estarem disponíveis para uma constante atualização dos seus conhecimentos.

São inúmeras as diretrizes da Segurança Social e da Direção Geral de Saúde. Acolher toda esta informação, integrá-la, passar à equipa a informação e formação sobre como nos devemos adaptar a esta nova realidade…nomeadamente, como os nossos rostos simpáticos passam a prestar serviços aos idosos, mas agora, sem rosto e unicamente com o olhar…como fazer conviver tanta regra para proteção com a proximidade que pretendemos num cuidado humanizado…

 

Palavra de ordem: Responsabilidade!

 

Métis: O que se ganha quando se opta pela prestação humanizada do cuidado ao sénior em vulnerabilidade?

 

Dra. Raquel Frade: Recompensa. Reconhecimento.

 

Nesta fase, estimulamos a troca de mensagens entre utentes e equipa de cuidados. Ajudamos e envolvemos os familiares a ajudar neste processo. Recebemos mensagens incríveis dos utentes, animando-se uns aos outros, agora que não estão juntos. Eles próprios, através destas mensagens, fizeram-nos passar a valorizar mais, rotinas de trabalho que nós achamos que são “normais” e “são para fazer”, como por exemplo: nunca parar o serviço a eles, faça chuva ou faça sol!..

 

Palavra de ordem: Gratidão!

 

Métis: Já referiu muitas componentes da humanização no ato de cuidar. Se tivesse de escolher mais 3 componentes das quais ninguém no seu papel, deveria de abdicar, quais referiria?

 

Dra. Raquel Frade: Informar, esclarecer e estar presente. Ninguém pode deixar de informar serviços e recursos que estão à disposição dos idosos e que satisfazem as suas necessidades (ex: Teleconsultas, receituário…); estar disponível para diálogos que esclarecem (ex. O que se está a passar, como proteger, onde adquirir…); estar presente, disponibilizando os nossos contactos.