Diálogo com Filipe Almeida e Silva

Em diálogo com Filipe Almeida e Silva

Fundador da iKi Technologies 

Enquadramento: Muitas vezes, a tecnologia é interpretada como estando em oposição à humanização.
O facto de olharmos cada vez mais para os ecrãs dos mais variados "devices", ao invés de cruzarmos olhares com pessoas reais, é um indicador daquela oposição quando pensamos nas relações interpessoais.

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Métis: No âmbito das soluções concebidas pela iKi Technologies, uma delas em particular, proporciona um olhar a quem o julgava perdido. Permite olhar o outro e o mundo em redor. Pode referir-nos como esta solução myeyes transforma vidas?

Filipe Almeida e Silva: Todo ecossistema myeyes foi concebido para pessoas cegas ou com baixa visão, podendo ajudar também pessoas com mobilidade reduzida.

O sistema assenta  numa tecnologia inovadora que utiliza o smartphone como instrumento básico. Este equipamento, com ajuda de um sistema assente na cloud e de outros dispositivos IOT, vai dando mensagens de voz, às pessoas cegas, à medida que eles vão andando em espaços que não conhecem.

É um facto que as pessoas não vendo, vão ouvir todo o contexto que está à sua volta e recebendo orientações sobre a deslocação. Também são alertados para eventuais perigos e receber diversas informações necessárias para conseguirem efetuar o percurso em segurança.

Este é só um dos exemplos de um espaço inclusivo com myeyes: Museu da Água 

Métis: A criação tecnológica segue um ritmo de crescimento exponencial. Os robots já podem ser dotados de inteligência. Estão a ser ensinados na expressão emocional da alegria, tristeza, raiva, felicidade, entre outras. Considera possível, em algum dia da nossa história, serem dotados de vontade?

Filipe Almeida e Silva: Neste momento não. A tecnologia que existe  realmente é uma tecnologia baseada em algoritmos. Existe hoje a capacidade dos computadores poderem aprender com situações reais e a partir daí ficarem com algum “conhecimento” e até tomarem decisões com base nessa aprendizagem.

Mas por enquanto e pese embora a evolução exponencial que se vai assistir nos diversos campos do conhecimento, não me parece que possam vir a ter “vontade própria”. Para isso acontecer, seria necessário que se conseguissem libertar e conseguir ganhar uma espécie de consciência ou um sentimento deles próprios. Estamos ainda muito longe disso neste momento e como referi atrás, os computadores são máquinas preparadas para executar código.


Métis: Num contexto tecnológico, como poderá a disciplina da ética, contribuir para balizar e diferenciar aquilo que é e não é, a tecnologia ao serviço da humanização?

Filipe Almeida e Silva: A tecnologia deve ser sempre um meio para atingir um objetivo, seja em que campo for.

Existem hoje, preocupações muito sérias, com o potencial que esta tecnologia pode vir a atingir e os fins com que poderá ser utilizada. No campo da Inteligência Artificial (IA), por exemplo, faz falta legislar. Hoje, treinam-se computadores para compreender algumas realidades e ajudar o homem a ser mais eficaz nas mesmas. É o caso da imagiologia médica, na atividade agrícola, análise de risco bancário, no reconhecimento de pessoas, etc...

Tudo isto é já feito, sistematicamente e a IA está incorporada em bastantes processos produtivos. Começam também a aparecer os primeiros problemas neste momento com o vision (olhos de computador que decorrem de estar muito tempo em frente dos ecrãs), e queixas diversas sobre extrapolação incorreta dos resultados aferidos. Tudo isto faz parte do nascimento de uma nova tecnologia. Temos que ter mais dados e dar tempo de processamento às máquinas para compreender melhor a totalidade das oportunidades e as verdadeiras ameaças.

A Métis conta ter-lhe proporcionado um bom momento de leitura, reflexão e agradece profundamente a conversa, partilha de conhecimento, testemunho e transformação de vidas em qualquer idade, a Filipe Almeida e Silva!