Diálogo com Fisioterapeuta Andreia Filipa Martins Gonçalves

Fisioterapeuta Andreia Filipa Martins Gonçalves


Fisioterapeuta desde Junho 2013
Pós-Graduada em Fisioterapia Cardio-respiratória em 2019
Atualmente a trabalhar na AISA, Casa Romana e prática privada

Métis: Na relação que estabelece com os seus clientes mais velhos, entre tantas histórias que a marcaram, há alguma que permaneça mais vívida na sua memória, não só pelo seu impacto técnico, mas também pelo impacto da interação per si?

Fisioterapeuta Andreia Gonçalves:

É extremamente difícil responder a esta questão. Penso que o trabalho de um Fisioterapeuta, e principalmente na área da geriatria, só é bem feito quando damos um pouco de nós.

Temos que ser humanos acima de tudo, porque muitas vezes a componente técnica não é o mais importante na reabilitação do utente. E curiosamente, quando o fazemos acabamos inconscientemente por notar uma fluidez nas sessões, como se não fosse trabalho.

De repente, a questão do raciocínio clínico minucioso e as estratégias de intervenção necessárias para atingir os objetivos deixam de ser um desafio complicado pois estamos por dentro de toda a situação.

Já experienciei inúmeras situações memoráveis. Consigo destacar uma, relativamente recente, e bastante afectada pela situação covid-19 que ainda hoje presenciamos.

Atualmente acompanho uma utente de 99 anos, orientada cognitivamente que realiza fisioterapia há 1 ano. Reside numa casa de repouso e até Março de 2020 ia todos os fins-de-semana almoçar a casa da filha, momento em que a família toda se juntava.

Entretanto as casas de repouso alteraram as condições de visitas de familiares bem como as saídas dos utentes do lar, que implica uma quarentena isolada quando regressam. Esta em questão não foi excepção. Como habitualmente faço, no início da sessão questiono como a utente se sente naquele dia e as suas queixas principais.

Nesse dia, ocorreu uma situação emocional anteriormente à Fisioterapia, pelo que recebo a resposta de “Hoje só quero falar, que as saudades da minha família são muitas e já nem posso ir a casa da minha filha”.

Fui apanhada de surpresa. Uma resposta tão íntima de uma utente guerreira, que está sempre pronta para os exercícios funcionais. Naquele momento puxei de uma cadeira e sentei-me a ouvir a utente. Naquele momento a utente não se sentia com energia e motivação para os exercícios, e eu certamente deixei de me preocupar com a capacidade física. Havia outras vertentes com prioridade e por vezes temos que prestar atenção não só ao bem-estar físico mas ao psíquico também.

Com a situação atual preocuparmo-nos mais com a segurança e a higiene mas nunca devemos descurar da atenção e cuidado dado aos utentes.

Estes são os pormenores importantes para os idosos. Talvez mais importantes que a componente técnica, porque as pequenas coisas da vida são as essenciais à vida.

É impressionante como os idosos partilham connosco as suas experiências da vida e existe sempre algo a aprender ou a relembrar a sua importância. Basta estarmos dentro do “mundo deles”.

Métis: Apesar de cada sénior ter objetivos diferentes, pois a idade manifesta-se de forma diversa, é importante vencermos a tendência em desistir ou restringir demais as nossas atividades à medida que vamos conquistando anos à vida. Que ferramentas utiliza, para poder informar o idoso que a procura, sobre que limites deverá respeitar e que limites deverá expandir (mesmo que com esforço)?

Fisioterapeuta Andreia Gonçalves:

Os Fisioterapeutas são obrigados a desenvolver a capacidade de entender cada utente. Damos por nós a interpretar inconscientemente a comunicação não-verbal e a relacioná-la com a informação dada verbalmente pelo utente/família. Só assim conseguimos compreender a pessoa que temos à frente.

Podemos ser confrontados com uma grande diversidade de utentes, e temos que ter em consideração vários aspectos como a idade, estado emocional e o estado cognitivo. O nível de educação e a experiência de vida também são cruciais para adaptarmos a nossa linguagem quando comunicamos.

No curso base de Fisioterapia incentivam-nos a explicar ao utente/família a doença e o plano de tratamento. Cada vez mais penso que deveria ser uma obrigação fazê-lo. Há inúmeras razões, mas destaco o ganho da confiança do utente/família, que irá condicionar a sua adesão ao plano de intervenção proposto, e a aceleração do processo de reabilitação.

Quanto melhor explicarmos ao próprio utente o seu problema e o plano de tratamento, bem como as suas consequências, melhor entenderá a sua situação. Mais facilmente estará atento ao que agrava ou alivia a sintomatologia, o que pode fazer ou deve evitar.

Esta informação facilitar-nos-á nas técnicas a adoptar mas também na aquisição de mais um elemento na equipa.

Todo o trabalho deve ser equipa e a comunicação entre os elementos da equipa deve ser aberta. Porque a equipa não são só os profissionais de saúde.

Qualquer pessoa que tenha convivência com o idoso faz parte da equipa, portanto, além destes, incluímos a família, a cuidadora e até a vizinha que visita diariamente para verificar se está tudo bem.

Nunca nos devemos esquecer que a reabilitação é um processo contínuo, e por isso, quando o Fisioterapeuta não está presente, os outros elementos da equipa presentes deverão continuar as estratégias definidas em equipa.

Métis: Fazendo alusão a um poema de Fernando Sabino:
De tudo ficaram três coisas...
A certeza de que estamos começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar...
Façamos da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!
Como relaciona o movimento patente no texto, com a missão da sua atividade junto dos mais velhos, alguns, vivendo um envelhecimento, menos saboroso?

Fisioterapeuta Andreia Gonçalves:

É completamente impossível não relacionar o movimento com a Fisioterapia.

Na Fisioterapia temos o objetivo de desenvolver, manter e restaurar o máximo movimento e capacidade funcional ao longo da vida. E na verdade temos que aproveitar qualquer motivação existente para o atingir, pois é um caminho longo e contínuo.

Dado a esperança média de vida estar a aumentar, a qualidade da saúde com que se envelhece é cada vez mais preocupante e isso induz-nos a focarmo-nos não só na reabilitação mas essencialmente na promoção e prevenção da saúde.

São estes os factores que se destacam nestas idades, dado que os próprios não se preocupam tanto.

A medicina evoluiu muito nos últimos anos, contudo ainda não modificou a mentalidade de algumas pessoas e gerações. Nas gerações mais antigas o movimento tem que estar obrigatoriamente relacionado com alguma tarefa/responsabilidade específica, pois assim foram educados. Cresceram com o objetivo do trabalho ter que ser feito, e que quando está concluído, já não é necessário continuar a realizá-lo. É bastante mais complicado explicar aos idosos a importância de continuar a realizar fisioterapia ou alguns exercícios de um modo autónomo com vista na prevenção da imobilidade, de uma nova lesão, ou outro problema de saúde. Situação que já não se observa com tanta frequência quando falamos com os seus filhos e netos.

Por isso, tentamos descobrir o que motiva cada idoso, qual era a sua profissão, o que gostava de fazer quando não estava a trabalhar, ou até mesmo o que quereria poder fazer no futuro. Frequentemente somos confrontados com atividades que incluem os netos, seja poder brincar com os mesmos ou ir ao seu casamento.

A partir daqui é integrarmos esta alavanca e tentarmos mudar a perspectiva de vida. Interessa-nos que haja mudança no estilo de vida e que esta não seja apenas temporária enquanto resolvemos o problema pelo qual nos procuraram. Idealmente, o processo não tem fim, pois será o novo estilo de vida que incentivará a continuidade do mesmo.