Diálogo com Nutricionista Marcelle Saldanha

Marcelle Saldanha

É nutricionista clínica especializada em Saúde do Idoso pela Residência Multiprofissional do Hospital Risoleta Tolentino Neves/UFMG e Mestranda pelo Programa de Nutrição e Saúde na linha de Nutrição Clínica e Experimental com foco em gerontologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Integrante da diretoria adjunta da Sociedade Mineira de Tanatologia e Cuidados Paliativos de Minas Gerais.

Trabalha em clínica especializada em atendimento ao idoso e na atenção domiciliar com idosos robustos, frágeis e em cuidados paliativos.

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Métis: Na sua experiência, houve algum caso que a tenha marcado substancialmente, relativamente ao poder da nutrição no bem-estar do geronte?

Nutricionista Marcelle Saldanha:

Sem dúvida! São muitos casos, mas vou contar um que é recente e interessante relativamente ao como a terapia nutricional foi sendo modificada ao longo do acompanhamento. 

No começo do ano fui solicitada a acompanhar um idoso de 89 anos, pós alta hospitalar por insuficiência renal crônica agudizada com hipercalemia e pós infeção por Covid-19. Ele tinha diversas doenças de base, e dentre elas um câncer de próstata que no primeiro momento estava sob controle. No primeiro atendimento encontrei um paciente extremamente emagrecido, com limitações físicas por fraqueza muscular e força diminuída.

Começamos a trabalhar o aporte de energia, com proteína, carboidratos, lípidos, fibras, vitaminas e minerais. Aos poucos ele foi ganhando peso e massa muscular e conseguiu sair de casa para dar uma volta na praça, porque era algo que ele queria muito. Além disso, melhorou a marcha, o que proporcionou mais independência em seu domicílio.

Durante o acompanhamento ele precisou ser internado por trombose. Ao retornar, novamente modificamos o planejamento alimentar pois foi acrescido, um medicamento que tem interação alimentar e seguimos o acompanhamento. Ele se recuperava muito bem! Mas em um dado momento começou a ter hemorragia e regressou ao hospital. Depois de diversos exames e quase 2 meses de internação, ele foi diagnosticado com diversas metástases, já em terminalidade.

Retornei a ele quando o mesmo teve alta e nesse momento foi instituída a nutrição de conforto, visando o controle de sintomas como constipação* e a adaptação de alguns alimentos, procurando proporcionar prazer nessa fase final de vida.

Esse caso é marcante pois percebemos a nutrição em suas diversas faces, a nutrição que contribui para a melhora funcional de um paciente* em um dado momento, a que funciona em conjunto com o medicamento no controle de doenças e também a nutrição que permite uma alimentação afetiva no final da vida.

nota* -  todos terão compreendido que a Nutricionista Marcelle Saldanha, nos escreve no seu português natural do Brasil. Por esta razão, consideramos importante, fazer alusão unicamente a duas palavras equivalentes: constipação e paciente, no português do Brasil, equivale a obstipação e doente, no português de Portugal.

Métis: À medida que envelhecemos, também alteramos o nosso olfato e paladar…isso pode interferir muito no prazer que retiramos sobre o ato de comer. O que nos recomenda considerar, para que este ato possa ser continuamente saboreado com agrado?

Nutricionista Marcelle Saldanha:

Isso é verdade! O envelhecimento traz diversas alterações sensoriais e o grande problema é que

os idosos costumam colocar mais sal ou açúcar na comida, podendo causar algum descontrole em uma doença já existente.

Para contornar essas situações precisamos investir em temperos naturais e temos vários, dentre eles os mais usuais são o manjericão, alecrim, alho, cebola, coentro, cebolinha, salsa, tomilho, açafrão e no caso de alimentos doces, podemos usar o cravo e canela.  Tudo isso, atrelado à boa companhia na hora das refeições, contribui de maneira substancial para melhora da aceitação alimentar em idosos.

Métis: Ao longo da vida vamos tendo necessidades nutricionais diferentes. Quanto mais caminhamos na idade, que nutrientes devemos consumir mais e quais os que devemos consumir menos? Quantas vezes podemos pecar por ano (cometer excessos), sem que tal, gere um desequilíbrio gigante no nosso sistema e por consequência, nos coloque em risco?

Nutricionista Marcelle Saldanha:

Nosso corpo muda ao longo do tempo, seja por questões fisiológicas (aquelas inerentes ao envelhecimento) ou por questões patológicas, que seria a presença de doenças e isso faz diferença em relação a qual nutriente precisamos ingerir em maior ou menor quantidade.

Mas, de forma geral, uma pessoa que envelhece sem doença ou com doenças controladas, precisa sempre se atentar ao consumo de proteína, cálcio, fibras e vitamina D, essa última, mais pela exposição ao sol do que pela alimentação em si.

Para diminuir, eu faço um alerta, não a nutrientes isolados e sim, a alimentos ultraprocessados, que são aqueles industrializados que têm em sua composição, diversos aditivos químicos prejudiciais à saúde, e isso vale para qualquer faixa etária.

Em relação a excessos, eles são prejudiciais quando são feitos de maneira sequencial, ou seja, em várias refeições e em vários dias seguidos. Não existe um limite estabelecido para os excessos, no entanto devemos nos preocupar para que os excessos sejam exceção e não a regra. E caso aconteçam, o ideal é que se planeje a próxima refeição de forma a que se priorizem os alimentos saudáveis.

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Amanhã, visite-nos de novo! Terá acesso à continuidade deste diálogo com Nuticionista Marcelle Saldanha, a quem agradecemos o seu contributo, em profundo!