Diálogo com Professora Doutora Augusta Gaspar

Professora Doutora Augusta Gaspar

Professora Auxiliar, Coordenadora da Área científica de Psicologia, membro do Conselho de Direção do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing, foi coordenadora da Licenciatura em Psicologia (2016-2019) e coordena diversas unidades curriculares em programas do 1º e 2º ciclo. Vêr mais

Enquadramento do diálogo: O amor, a vergonha e a inveja, nos contextos de cooperação humana (trabalho, equipas, parcerias…)

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Métis: Utiliza-se vulgarmente a expressão “fazer amor”, associando-a às relações românticas. Se se pensar o amor como emoção ou sentimento, ele não pode ser feito, mas antes, sentido! Se o pensarmos como competência, então ele pode ser treinado e realizado regularmente e legalmente, em diversos ambientes nomeadamente nos de trabalho e parcerias. Afinal o amor é o quê? Emoção, sentimento ou competência?

Professora Doutora Augusta Gaspar:

O Amor é, por definição, um sentimento, apesar do alargado uso da palavra. Não vejo como o amor possa ser treinado, mas isto também não é uma nota de pessimismo. Acho que há frutos daquilo que consideramos amor que se podem estimular em diversos ambientes, como a Atenção aos outros, a Empatia e a prosocialidade. Quem está numa posição de liderança no local de trabalho pode criar um ambiente de orientação para o outro, de atenção às necessidades diferenciadas de diversas pessoas. A Empatia também é estimulada com a exposição aos outros, às suas realidades, problemas e emoções, e a familiaridade facilita a empatia. O contágio emocional, que é uma componente muito básica e automática da empatia (e que até os bebés possuem) também pode desempenhar um papel importante, pois tanto se pode ser contagiado por um chefe ou uma equipa onde predominam emoções positivas, comportamentos de entreajuda e compaixão, ou por uma em que predominam emoções negativas, stress, inatenção. Penso que isto se deve ter em conta para criar um ambiente de verdadeiro bem-estar em contexto de trabalho.

Métis: Associamos emoções ditas de “negativas” a emoções que nos afastam uns dos outros. Nas redes sociais até se faz o apelo ao mantra: “afasta-te de pessoas negativas, tóxicas, etc…”. No livro New Interdisciplinary Landscapes in morality and emotion, contribui em co-autoria para um capítulo sobre o potencial da vergonha no comportamento pró social. A vergonha é todavia, algo que associamos a negativo, contido, isolado…Afinal o que se passa no cérebro envergonhado que mobiliza e/ou facilita o encontro com o outro?

Professora Doutora Augusta Gaspar:

Enquanto seres sociais que somos, a experiência da vergonha é um pouco como ter uma audiência na nossa cabeça que nos reprova, não apenas no que especificamente fizémos de errado, mas que nos reprova como um todo. É muito difícil conviver com esta emoção e ela pode conduzir a muita ansiedade e à depressão se não fôr resolvida. É por isso que é saudável resolvê-la, pondo fim simultânemente a uma imagem negativa que se tem de si mesmo e à que se tem a percepção de que os outros também têm (às vezes exagerada). Mas é a necessidade que a pessoa em sofrimento com vergonha está a ter de repôr uma imagem positiva de si própria, que leva à conduta muito adaptativa e saudável, de se envolver num conjunto de atividades que beneficiam os demais e ao mesmo tempo lhe devolvem bem-estar psicológico.

Métis: No mesmo livro referido na questão anterior, há uma abordagem à inveja. Esta é seguramente uma emoção frequentemente vivida nos grupos humanos, ambientes de trabalho e parcerias e que facilmente boicota o sucesso das cooperações, mas é muito pouco falada. Mais facilmente digo que “não estou bem”, “estou triste” do que “estou verde de inveja”! O que nos pode recomendar como antídoto desta emoção que conduz a sentimentos tão perturbadores para o próprio e para as relações?

Professora Doutora Augusta Gaspar:

Há fatores individuais em jogo certamente, mas para quem se quer livrar do desconforto da inveja recomendaria nutrir a  Gratidão, pois a investigação que se tem feito em torno desta experiência afetiva mostra que intervenções simples destinadas a estimular a gratidão produzem resultados validados quanto aos seus benefícios para o bem-estar psicológico, mas também para a saúde física. Deixo um link para um site que pode ser útil nesta resolução https://greatergood.berkeley.edu/topic/gratitude