Diálogo com Sr. Professor Alexandre Castro Caldas

Atual Diretor do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, foi até Fevereiro de 2004, Professor Catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina de Lisboa e Diretor do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria em Lisboa.
Foi, ainda, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia entre 1989-1992 e presidiu à International Neuropsychological Society entre 2001-2002.
É autor de mais de 200 artigos e capítulos científicos e de alguns livros sobre as Ciências do Cérebro.
De entre os prémios recebidos salienta-se o Grande Prémio Bial de Medicina no ano 2000 e o Distinguished Career Award da International Neuropsychological Society em 2009.

Métis: Dedico este espaço para diálogos que demonstrem um olhar multidisciplinar sobre a humanização da comunicação com o sénior que vive dependência/s. Na perspetiva do médico e do neurocientista, o que nos diz sobre se perante um recém-nascido e um sénior em vulnerabilidade, terá o cérebro humano uma preferência natural/especial por um ou por outro?

Sr. Prof. Castro Caldas: A identificação do outro enquanto alvo de atenção ou de tomada de decisão é um fenómeno complexo em que intervêm múltiplas variáveis. Em primeiro lugar a empatia de espécie relacionada com o nosso desenvolvimento no contexto social com outros humanos começando pela vinculação parental. Em segundo lugar um processo de comparação face ao próprio (mais novo, mais velho, mais forte mais fraco, mais gordo, mais alto etc.). Em terceiro lugar a compreensão da situação em que o outro se encontra através de processo empático (eu sinto o que tu sentes). Por último (embora se possam elencar mais sub processos) o papel do enquadramento social (cultural, político…). De qualquer forma no processo de decisão interfere o julgamento emocional de situação dependente de estruturas do córtex cerebral pré-frontal interno. Em casos de lesões destas estruturas não há julgamento apropriado e quando há situações de clara desumanização este córtex não se activa.

Métis: A humanização tem um lugar no nosso cérebro?

Sr. Prof. Castro Caldas: Sempre que existe um processo mental, qualquer que ele seja, há um processo biológico envolvido, nomeadamente relacionado com a função cerebral.

Métis: À semelhança de outras competências que apresentam uma janela temporal para a sua aprendizagem (ex: vinculação segura ou não, competências linguísticas etc..), haverá uma janela para a humanização? Quais as maiores ameaças e facilitadores à sua aprendizagem?
Sr. Prof. Castro Caldas: Vale a pena pensar em casos em que por razões diversas aconteceu que crianças tenham sido privadas de contacto social na infância, como é o caso de Genie que se encontra bem documentado na internet. Neste caso o facto de não ter havido comportamento de mímica com humanos não permitiu modular matrizes neurais adequadas à empatia (até a motricidade da marcha se afastava da motricidade normal dos humanos).
Estes processos são muito precoces no desenvolvimento (o recém-nascido reconhece os olhos da mãe ao fim de poucas horas). Os casos de indivíduos com psicopatias que praticam actos associais revelam também que são portadores de lesões muito precoces que envolvem estruturas do córtex do lobo frontal.

Para quem ficar com curiosidade em conhecer o caso de Genie, partilho um link para o documentário no Youtube
https://www.youtube.com/watch?v=VjZolHCrC8E