Diálogo com Terapeuta Ana Rita Santos

Em diálogo com Ana Rita Santos

Terapeuta Ocupacional

Casa do Alecrim, resposta da Associação Alzheimer Portugal

 

Métis: A Terapia Ocupacional é ainda uma atividade sub-utilizada na área gerontológica. Como poderia sintetizar a importância desta atividade, não só junto do sénior que vive dependência/s, como com aqueles que se encontram ao seu redor.

Ana Rita Santos: A Terapia Ocupacional é uma área que foca a sua intervenção na ocupação. E quando falamos em ocupação falamos em todas as atividades que realizamos ao longo do nosso dia, nomeadamente as atividades de vida diária (tomar banho, lavar os dentes, comer,...), produtivas (trabalhar, voluntariado,...) e de lazer (dançar, jardinar, pintar, jogar ténis,...).

Durante o processo de envelhecimento, principalmente quando existe uma situação de dependência, seja de que ordem for, existem, inevitavelmente, mudanças na pessoa, no ambiente que a rodeia e na forma como desempenha as suas ocupações significativas.

Assim, o Terapeuta Ocupacional vai ter um papel fundamental na intervenção, junto da pessoa idosa com dependência, ajudando-a a identificar as suas ocupações significativas, a reorganizar as rotinas e a adaptar a forma como se envolve e desempenha essas mesmas ocupações, sem perder o seu sentido de competência e eficácia e mantendo-se autónomo e/ou independente no desempenho das atividades que valoriza, lhe dão prazer e lhe são necessárias ao dia-a-dia. O principal objetivo é que a vida da pessoa tenha sentido e significado.

Contudo, não nos podemos esquecer que o ser humano é um ser social e estabelece relações interpessoais ao longo de toda a sua vida. Assim, o desafio de viver com uma dependência é do próprio e de quem o rodeia.

A Terapia Ocupacional não esquece o ambiente social da pessoa com quem intervém, seja para compreender a rede de suporte que existe e como esta pode melhorar o dia-a-dia da pessoa, seja para fornecer estratégias aos amigos e familiares e, em conjunto, definir e aplicar as mudanças e adaptações necessárias para que todos encontrem o seu papel e o seu equilíbrio ocupacional, dentro dos desafios inerentes.

Métis: No meio de tantos pensamentos interessantes, ocorre-me destacar este agora: “Quanto mais interessante é a experiência que podemos ter com o mundo exterior, menos tempo nos focamos no mundo interno, onde reside a dor.” Fará sentido relacionar este pensamento de David Levitin, com um dos grandes propósitos da Terapia Ocupacional?

Ana Rita Santos: Este é sem dúvida, um pensamento pertinente e extremamente atual.

O mundo em que vivemos é demasiado estimulante, oferece cada vez mais experiências e num tempo demasiado rápido para as podermos saborear. Vigora a crença de que somos mais felizes quanto mais experimentarmos, fizermos e mostramos que fizemos, independentemente do que isso nos faz realmente sentir.

Acredito que as relações com o mundo externo são cada vez mais, mas também cada vez mais fugazes e, frequentemente, um escape para o que cada um sente no seu interior, levando a que pense menos em si e naquilo que sente, nomeadamente nas suas dores internas.

A Terapia Ocupacional pretende, na sua essência, que a dinâmica entre a pessoa, ambiente e ocupação seja a mais saudável, equilibrada e funcional e isso, pode ser visto como: encontrar um equilíbrio entre o que o mundo exterior nos oferece, as ocupações que temos para realizar e aquilo que cada um é na sua essência.

Cada pessoa tem a sua espiritualidade, valores, crenças, interesses, capacidades e inevitavelmente, medos, angústias e tristezas, sendo importante que exista uma dinâmica saudável entre estes e o mundo exterior.

Tem de existir tempo e disponibilidade para se olhar para o mundo interno e assim criar uma relação saudável com o mundo externo. Neste mundo que nos absorve cada vez mais e nos faz, frequentemente, entrar em automatismos, a Terapia Ocupacional pode ser a ponte entre a pessoa, o ambiente exterior e todas as atividades que este nos oferece de uma forma saudável e adaptada a cada um.

Métis: Houve algum impossível que verificou possível, no decurso de um processo terapêutico?

Ana Rita Santos: Como Terapeuta Ocupacional aprendi que nada é impossível, mesmo que esteja com muitas dúvidas sobre a melhor abordagem terapêutica.

A trabalhar atualmente com pessoas com demência, os meus conceitos para possível, impossível e expectável, ganharam outra flexibilidade.

Intervir com pessoas com demência é ajustar constantemente as expectativas, como Terapeuta, mas acreditar sempre que a minha intervenção pode ter uma resposta positiva. Por vezes, estas respostas são muito pequeninas mas existem, e é para elas que trabalho todos os dias, nomeadamente quando intervenho com pessoas com demência numa fase avançada, onde os momentos de interação são escassos e/ou subtis. 

Mas recordo, por exemplo, uma senhora com demência em fase avançada, que passava os seus dias em frente da televisão, no sofá, sem focar atenção em praticamente nada e com muito pouca iniciativa para comunicar ou estabelecer ligações interpessoais.

Quando iniciei o processo de intervenção, o meu principal objetivo era estabelecer relação com a senhora e trabalhar também com o seu marido para quem o processo de demência da esposa e os seus comportamentos estavam a ser um grande desafio.

No início não estava a ser fácil estabelecer uma ligação com a senhora e conseguir ganhar a confiança de um marido cuidador, muito atencioso com a sua companheira de vida mas muito desgastado com o seu cuidado a 24 horas por dia.

Depois de algumas tentativas e de ficar a saber que a maternidade tinha sido um período muito especial e significativo para esta senhora e que ambos gostavam muito de crianças, decidi experimentar a doll-therapy - muito resumidamente é a utilização de bonecas para facilitar a ligação com o mundo externo, a interação-comunicação e a ativação de certas reminiscências e emoções, nomeadamente o vínculo materno, promovendo momentos de tranquilidade e bem-estar na pessoa com demência.

Observar a sua reação à boneca e toda a interação subsequente foi absolutamente surpreendente. Recordo-me de o marido estar no sofá junto dela e emocionar-se, porque há anos que não a via tão comunicativa, feliz e tranquila. Estava focada na boneca mas também mais atenta ao que a rodeava e às pessoas que estavam junto de si, passando a boneca a ser um mediador da interação comigo e com o seu marido.

Foi possível, a partir daí trabalhar outras dimensões com esta senhora e com o seu marido e a boneca tornou-se um elemento cheio de significado, proporcionando-lhe sentido e bem-estar ao longo do dia.

Para terminar, reforço que Intervir com pessoas com demência contraria o conceito tão presente na nossa profissão de reabilitação. Sabemos que não vamos reabilitar, mas a nossa intervenção é mais que isso, é dar sentido à vida quando parece ser tão difícil encontrá-lo e por isso o impossível não existe e a adaptação, flexibilidade e criatividade são palavras de ordem na nossa abordagem.