Diálogo com Terapeuta Margarida Matos

Terapeuta Margarida Matos
Trabalha com pessoas com demência há 16 anos, em várias respostas da Associação Alzheimer Portugal
Terapeuta Ocupacional com formação inicial em Cuidados Paliativos
Atualmente, coordenadora da Estrutura Residencial Para Idosos

Métis: Há a necessidade atual de criar um ambiente de cuidado em que o contágio pelo novo Corona Vírus seja minimizado, diminuído, erradicado se isso for possível. Continua a ser de máxima importância, dar resposta à necessidade de estimular a troca de afeto entre as equipas de profissionais e as pessoas maiores que precisam do cuidado.
Como coordenadora de uma equipa que cuida, como viu reorganizar a forma de se comunicar e interagir na “Casa do Alecrim”, de forma a responder ao casamento das duas necessidades anteriores?

Margarida Matos: Esta fase da Covid 19 está a ser muito difícil, nomeadamente no cuidado às pessoas maiores com demência. De repente, temos de mudar o nosso comportamento para com elas, utilizar máscaras e distanciarmo-nos mais que o habitual.
Na Casa do Alecrim fizemos mudanças radicais. No período de maior incerteza, em que ninguém percebia o que se passava, reduzimos ao máximo o número de pessoas dentro das instalações.

Fizemos equipas fixas, a trabalhar 12 horas por dia, em três dias consecutivos. Ao fim destes três dias, confinavam seis, entrando uma outra equipa. Fomos realizando este processo de rotação.

Com esta medida, reduzimos as terapias externas cujos profissionais se focam unicamente em criar encontros significativos com os nossos residentes, como por exemplo, com a terapia assistida por animais, a musicoterapia, a visita com palhaços…tudo isto foi interrompido e costumo dizer até, que a flor de Tom Kitwood murchou. Ficámos preocupados com a proteção e focámo-nos no cuidado básico.

Hoje, estamos a começar a regar aquela flor, para que fique bonita, procurando de novo voltar a preencher as outras necessidades dos nossos residentes e proporcionar-lhes qualidade de vida.

Abril e Maio foram meses dramáticos, sem visitas…a Casa do Alecrim é uma casa aberta, as visitas entram à hora que querem, estão o tempo que podem, assistem às terapias, podem assistir à higiene do seu familiar pois têm o direito de saber como este é cuidado é efetuado. De uma porta completamente aberta, fechamos e sofremos todos com isso.

Com o retorno das visitas e porque somos uma Casa que cuida de pessoas que vivem com demência e cuja palavra já não é veículo de comunicação mais eficaz, centramos esta interação na expressão não verbal e presentemente, com máscara. Considerámos inadequada a interação entre o residente e a visita, ser feito a dois metros de distância, pelo que é permitido que o familiar toque na mão, faça festinhas…no fundo, interagir e estimular…e mesmo assim é pouco. O tempo de visita está limitado aos 30 min, uma vez por semana. Estávamos todos habituados a muita estimulação, profissionais, residentes e familiares.

Implementámos muitas chamadas de vídeo, mais para tranquilizar os familiares. As notícias sobre lares eram terríveis. Desta forma, conseguimos que ficassem próximos, embora as vídeo chamadas não representem um meio de comunicação interessante para pessoas com demência em estádios avançados de progressão.
Em síntese, embora não tenhamos ainda recuperado o casamento perfeito entre a necessidade de proteção e interação social, sinto que já estamos no bom caminho!

Métis: Um cuidador cuidado, é meio caminho andado para a qualidade humana do serviço prestado. Que medidas acredita favorecerem o desenvolvimento contínuo das melhores qualidades humanas dos cuidadores, numa atividade de tão elevado grau de exigência?

Margarida Matos: Os cuidadores a que me refiro nesta resposta, são os Auxiliares de Ação Direta. Exercer esta função é muito difícil e nem sempre é reconhecida na sua importância.

Na Casa do Alecrim é uma profissão sem a qual, a equipa que cuida fica incompleta e sem funcionar devidamente. Por esta razão, prestamos muita atenção ao seu trabalho e ficamos muito aflitos quando algum dos elementos tem de faltar. Se sou eu a faltar…faltei.

Estimular o melhor, na nossa Casa, implica medidas muito concretas, como:

  1. Acionamos facilmente um plano de substituição, sempre que um auxiliar tem de faltar ou gozar as suas merecidas férias. Refiro-me a uma substituição, com profissionais que já nos conhecem e são formados por nós;
  2. Não têm de tomar decisões difíceis. Nunca estão sozinhas, há sempre um técnico presente nas 24 horas, colaborando com elas nas atividades, tarefas e a partilhar essas decisões. Todos os técnicos não estão fechados nos gabinetes;
  3. Definimos a sua função para que possam dedicar o seu tempo a cuidar dos residentes, unicamente. Não fazem cozinha, lavandaria, limpezas, medicação, alimentação por sonda;
  4. Reunimos periodicamente para partilhas, decisões, formação. O conhecimento que elas têm, pela natureza do trabalho que exercem, é fundamental para acionarmos e ajustarmos estratégias;
  5. Respeitamos as 8 horas do seu trabalho. Com esta fase da Covid 19, soubemos todos o que significa trabalhar 12 horas em contínuo…não somos os mesmos por mais que queiramos, ao fim das 12 horas! Embora seja algo natural, cumprir com este horário de 8 horas, sabemos que há pessoas nesta profissão que são expostas as jornadas de trabalho, não compatíveis com o cuidar.
  6. Sendo a nossa filosofia de cuidado, o cuidado centrado na pessoa, também os membros da equipa fazem parte deste centro;
  7. Procedemos à alteração de funções com as necessidades decorrentes da Covid 19 e toda a equipa fez o que foi preciso para manter o isolamento e residentes em segurança. Testemunhamos, na maioria dos colaboradores, uma dedicação extra, disposição para fazer fazer mais se assim fosse crucial…fossem eles, auxiliares de ação direta, enfermeiros, ou terapeutas ocupacionais.

 
Métis: Referindo-me um pouco ao acompanhamento de pessoas que se encontram num estádio avançado de demência e com as quais a comunicação se processa em moldes diversos da do uso da palavra, pode dar-nos um exemplo de conquista comunicativa que nos inspire a nunca desistir de interagir socialmente com estas pessoas?

Margarida Matos: Conhecemos muito bem os nossos residentes. Muitas vezes, entram na nossa casa, autónomos e permitem-nos saber informação sobre eles, as palavras, ocupações, músicas que mais gostam…etc…A doença vai depois progredindo na nossa presença. Quando se chega a uma fase de maior fragilidade, já conhecemos muita coisa que nos facilita continuar a estabelecer a ponte com elas.

Quando não conhecemos tanta informação sobre o residente, pedimos ajuda aos familiares no preenchimento de uma folha A4 que colocamos na mesa de cabeceira. Essa informação, à qual chamamos “quem sou?”, responde nomeadamente a: quais as datas mais relevantes? qual o nome dos filhos? qual foi o seu trabalho? o que gosta? como gosta de ser tratada/o? quais as tarefas para as quais há mais dificuldade de execução?…Também partilhamos esta informação com a nossa equipa para que todos os seus membros estejam informados sobre a relevância desta informação no estabelecimento da comunicação, numa fase de mudança tão importante na vida destas pessoas.

Mesmo nas situações em que parece que não há comunicação, sabemos que está lá aquela pessoa. Estando atentos às suas expressões e utilizando a música, ou orações…musicalidades que integrem lenga-lengas conhecidas, é possível criar encontros.

Uma conquista comunicativa neste tempo da Covid 19 e com a qual fiquei encantada, prendeu-se com um momento em que facilitava uma chamada de vídeo entre uma filha e um mãe, nossa residente. A filha esforçava-se imenso para comunicar com a mãe e ter dela uma resposta. De repente, parece que a mãe reconheceu a filha e agarra-se a mim, aos beijinhos. Mesmo que a vídeo chamada não seja um veículo fácil de comunicação nestes casos, só o facto de fazer surgir uma iniciativa destas por parte da residente, vale a pena! Fiquei muito comovida e elas, bem!