Em diálogo com MusicoTerapeuta Maria Gabriela Nicolau

Maria Gabriela Nicolau

Musicoterapeuta certificada com formação inicial em cuidados paliativos e em musicoterapia neurológica. Trabalha na área do envelhecimento há 14 anos e atualmente, na Casa do Alecrim, resposta da Associação Alzheimer Portugal

Métis: Muitas respostas de acolhimento e cuidado ao sénior em vulnerabilidade encontram na televisão, uma das maiores ferramentas distração. O que me diria, se ao invés desta, fosse a música a impregnar estes espaços?

Maria Gabriela Nicolau: Quando coloca esta questão, visualizo logo uma sala onde estão várias pessoas (por vezes muitas pessoas) vulneráveis e sim sem dúvida, a música!

A música tem uma grande vantagem: para além de ser um estímulo muito rico e com o poder de proporcionar experiências belas, é também sentida, duma forma geral por todos nós, como um fenómeno social, de ligação aos outros...e viver com demência pode ser extremamente isolador! Se pensarmos nas dificuldades crescentes de comunicar, decorrentes de uma doença neurodegenerativa...a própria linguagem verbal começa a ser afetada e a música, enquanto expressão não verbal, pode adquirir ainda mais importância nesta fase.

Mas aqui, penso principalmente na música “não técnica”, a música criada no momento, para aquelas pessoas em concreto, naquele momento específico, o uso da voz humana, da música ao vivo que tem uma versatilidade única e que é diferente da música gravada. Aquela que abre canais de comunicação emocionalmente personalizados e que requerem a intervenção de um musicoterapeuta.

Já sabemos que as músicas significativas para cada pessoa são relevantes. Acabam por ser, para certas pessoas, os únicos momentos de recuperação da identidade...mas isto nem sempre é possível! Por vezes conhecemos a pessoa quando esta já não se consegue expressar verbalmente. Já não tem família ou pessoas ligadas que nos possam dar orientações e é muito no momento, no aqui e agora, nas músicas que se vão construindo que se vai promovendo o bem-estar daquela pessoa distinta. A música também é facilitadora da ocorrência do brilho em todas as folhinhas mágicas modelizadas por Kitwood (*), com a sua abordagem profundamente humanista, tão atual e premente nesta área de trabalho com pessoas vulneráveis. Pessoas que no dia-a-dia, lutam com todas as suas forças para manter a sua integridade enquanto Ser Humano.

Mas voltando às ferramentas...creio que não há receitas mágicas e que funcionem sempre bem a todo o momento. Parece-me que a variedade de ferramentas é uma boa ferramenta (pese o pleonasmo). Importa ter bem definido o objetivo... é que por vezes colocamos uma música para facilitar uma tarefa, para estimular o movimento, para termos um fundo musical constante, quase uma espécie de ruído branco... mas outra vezes colocamos um CD, ligamos a TV, sintonizamos uma estação de rádio e fica assim…a tocar 1, 2 , 3 horas e se calhar, com um volume que se quisermos falar, vamos ter de o fazer mais alto, muito mais alto, para nos ouvirmos.

Devemos ter sempre presente que a pessoa que vive com demência, em determinadas fases, deixa de ter a capacidade de controlar o que ouve, o que vê, o volume do som, a música que quer ouvir, quando quer ouvi... a maior parte das pessoas deixa de ter a possibilidade de se poder afastar, deixar o espaço se o som a estiver a incomodar ou pelo contrário, de se chegar perto, quando é do seu agrado...

Claro que quando se está em grupo, tem de haver um compromisso em vários aspetos, mas o elemento social, inerente à música, de ligação aos outros, de alegria, é para mim o mais forte, o mais terapeuticamente relevante.

Há características objetivas de cada música, diria intrínsecas que são importantes assinalar: umas são mais estimulantes, outras mais calmantes, umas facilitadoras de emoções positivas, outras, facilitadoras de emoções contrárias. Mas este efeito pode ficar invertido com a experiência singular daquela pessoa em concreto. Recordo agora, uma pessoa que só consegue adormecer a ouvir Metalica! Outra que fica extremamente alegre a ouvir o adagio de Albinoni, ou outra ainda que quando ouve tocar um pandeiro, desencadeia em si, memórias inquietantes da guerra colonial... a experiência da pessoa sobrepõe-se.

Métis: A música é uma das produções humanas universal que tem o dom de evocar uma ampla gama de emoções, desde a alegria ao relaxamento, contentamento, tristeza, medo, conforto e a combinação destas…muitas pessoas utilizam a música para regular os seus estados internos de humor e também a sua ativação. Qual a diferença entre utilizar a música e a musicoterapia?

Maria Gabriela Nicolau: Nós vamos buscar a música para nos sentirmos melhor, mesmo quando nos sentimos tristes, alivia-nos porque nos sentimos compreendidos. A música surge com essa função tão importante: de autorregulação.

Isto quer dizer que todas as pessoas (umas mais que outras, e de diferentes formas) ao longo da sua vida, utilizam a música para se sentir melhor! a música encarada como algo bom, seguro (salvo situações especiais, algumas por vezes, do foro patológico).

A pessoa que vive com demência, à medida que esta progride, vai deixando de ter a capacidade de, sozinha, recorrer a este recurso...como é que o cuidador o pode fazer, para aumentar o seu bem-estar? o que é que o musicoterapeuta, nesta área da vulnerabilidade, faz especificamente?

A musicoterapia tem feito um caminho gradual de implementação em Portugal, nos cuidados de saúde, entre outras áreas de atuação.  Deve-se, no meu entender, ao trabalho da Associação Portuguesa de Musicoterapia, já com mais de 20 anos em Portugal e que tem seguido um caminho de rigor, tentando colocar-nos ao nível de outros países europeus, onde a musicoterapia funciona bem e há mais anos. Destaco os exemplos do Reino Unido, onde os profissionais de musicoterapia na área das demências, estão integrados na área da saúde e a Dinamarca, onde a musicoterapia é uma realidade em muitas respostas sociais.

Já se iniciou em Portugal, o processo de certificação do musicoterapeuta. Este, é um técnico com formação pós-graduada de 2 anos, mas não só!  O musicoterapeuta tem de preencher outros requisitos que, segundo a minha experiência, são essenciais a uma boa prática. Sublinho a supervisão clínica e o processo de desenvolvimento pessoal. A lista de musicoterapeutas certificados está no site da Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT), o que permite a cada resposta social que queira contratar um musicoterapeuta, fazê-lo, tendo a garantia de intervenção competente.

Mas então o que é que faz de especial o musicoterapeuta? desenvolve certas experiências musicais, partilhadas entre si e a pessoa/cliente ou grupo: improvisação, composição, recriação, escuta, movimento numa infinitude de nuances e combinações. É dentro destas experiências, assentes num processo relacional, experiencial, único que surgem o que eu chamo na área da vulnerabilidade sénior, os apontamentos, a sincronia, a ressonância emocional e que são para mim a verdadeira essência da intervenção musicoterapeutica nesta área.

Para além da intervenção clínica direta, do musicoterapeuta, tem-se verificado, benefícios indiretos, já em estudo noutros países. Desde logo o uso mais consciente da música e portanto, uma melhor utilização dela; por outro lado, o papel orientador do musicoterapeuta junto dos cuidadores – esta área iniciou-se nos EUA e na Dinamarca - em relação ao treino de competências terapêuticas de cariz musical e para promoção do bem-estar das pessoas vulneráveis. Tem-se salientado também, a intervenção do musicoterapeuta junto das pessoas com demência e seus familiares e dos cuidadores informais. Enfim, reconhecendo-se o musicoterapeuta, como parte integrante de uma equipa multidisciplinar.

Não posso ainda, deixar de salientar o papel importante de responsabilidade social do musicoterapeuta: a musicoterapia pelas suas características, tem todas as condições de permitir o acesso à música, duma forma experiencial, a todas as pessoas que por várias razões, nunca tiveram oportunidades ao longo da vida, em desenvolver as suas capacidades de uma forma igualitária socialmente. Nunca conseguiram sair dum limiar de poucos recursos, muitas com doenças crónicas a marcar a sua vida. A musicoterapia pode ser uma aposta e resposta comunitária de acesso à música, ao relacionamento social, à valorização da pessoa através da produção musical.

Métis: A mala de ferramentas de um musicoterapeuta deve ser muito rica! O que tem na sua mala? Se pudesse destacar um dos “milagres” conseguido através do seu uso que milagre destacaria?

Maria Gabriela Nicolau: A experiência que tenho desenvolvido ao longo dos anos com tantas pessoas, tem permitido um afinamento na gestão dos elementos musicais e um aumento da atenção que dou aos pequenos sinais comunicacionais e à sua grande importância destes, pelo que expressam.

Estou a pensar muito nas pessoas, cujo processo degenerativo neurológico está já muito avançado, difuso e os canais de comunicação que se conseguem estabelecer, são mínimos, breves, pontuais, mas existem, estão lá. Há um grupo muito particular de pessoas, cuja comunicação, se processa maioritariamente a um nível não verbal.

Ao longo dos anos, e através de muitas sessões semanais, verifiquei que através da gestão de certos elementos musicais, da proximidade, do som musicado, uma pessoa que inicialmente está de olhos fechados e com a expressão contida, pode começar a: erguer lentamente a cabeça;  reparar no resto do grupo; orientar o olhar para a fonte sonora; estabelecer contacto visual e sorrir. Há um momento de ligação humana indescritível. Por vezes são momentos relâmpago, mas são também momentos expressivos do bem-estar na pessoa.

Este grupo particular, cujas sessões foram feitas ao longo de alguns anos e que terminaram agora com as alterações provocadas pela pandemia, tinham por vezes, a presença do marido de uma senhora que também participava. Colocávamos uma cadeira, logo no início da sessão, para o caso deste senhor entretanto chegar. Quando ele chegava, aproximava-se devagar, apoiado pela sua bengala e por um sorriso enorme, principalmente dirigido à sua mulher, que estava atenta ao que se passava, mais comunicativa, num momento mais fácil de relação. Por vezes, este senhor tirava um pandeiro que ficava dentro duma caixa perto da cadeira onde se sentava e feliz, tocava e cantava para a sua mulher, ali, no grupo, e ela olhava-o com uma expressão de curiosidade muito peculiar, quase que a expressar nesse olhar, as palavras que não dizia: “o que é que este meu marido está a fazer?”

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(*) A referência a Tom Kitwood foi previamente realizada por Terapeuta Margarida Matos, num Diálogo sobre o Cuidado Humanizado ao sénior que vive com demência. Para quem não está familiarizado com a obra de Kitwood, recomendo a visita ou revistita ao diálogo anterior, bastando clicar AQUI. Neste, está espelhado o modelo de necessidades da pessoa com demência que devem ser respondidas e satisfeitas pelas entidades cuja missão é Cuidar.