Pecado do “não dizer não” / virtude do “dizer os sins possíveis”

No contacto continuado com cuidadores formais ou informais, oriundos de variadas fontes formativas encontrei amiúde, uma dificuldade que também senti como minha, algures no passado.

Recordo-me também que há pouco tempo, através dos "media", uma mãe idosa falava do seu filho cuidador exaltando a sua qualidade de nunca dizer que não aos pais. Quando esse filho foi entrevistado,...estava em completa exaustão.

Não só porque cuidava dos pais que precisavam, mas também porque cuidava do seu próprio filho. No meio, estava ele cuidador, só!

Dispensava a melhor atenção a todos esquecendo-se de si, enquanto pessoa.

Não vejo nada de bonito ou amoroso, neste caso. Não vejo mesmo! Com este facto não quero dizer que não se deva ajudar toda a família, mas essa assistência não deve ser à custa da saúde de um ente que não tendo um problema visível, tem uma necessidade silenciada. O amparo é compulsório, no entanto surge um problema adicional que agudiza o anterior…quem tem dificuldade em dizer não, tem em simultâneo, dificuldade em pedir ajuda…

Qualquer formação que tenhamos em suporte básico de vida, prepara-nos no sentido da preservação da nossa segurança quando socorremos outrem. E ao cuidador que não sabe dizer que não? Quem está atento a ele? Quem o ajuda a saber conquistar, manter e proteger a sua segurança quando por largos anos socorre outros…não em urgência, mas na cronicidade do ato de cuidar. É como se lhe fosse pedido para socorrer a alguém com a Covid 19 sem o equipamento de proteção necessário. A capacidade de dizer não nas alturas devidas e de recrutar o apoio nos momentos necessários, são como as máscaras, luvas, viseiras…são ferramentas de preservação da vida que se dedica ao cuidado aos outros.

Não há nada que não seja educável. E o não, pode e deve constar do vocabulário de um cuidador. Não para passar a dizer "não", a tudo e a todos, mas para fazer o filtro e conseguir pronunciar os "sins" possíveis.

Esta é uma outra admirável metamorfose de quem aprende a cuidar: transformar a resposta automática sim, numa resposta refletida, ponderada e internamente sentida como um autêntico e verdadeiro SIM!