Pecado do “redondo” / virtude da “ruga”

O cérebro do adulto humano está equipado para parar, escutar, interagir e olhar deliciadamente e por horas a fio, os traços redondos. Quem não se detém com a presença de qualquer ser, seja este, pessoa ou animal, cuja tenra idade de bebé ou cria, proporciona uma aparência frágil e redonda? Olhos redondos, refogas redondas, mãos ou patas sapudas, vocalizações imberbes cuja palavra não há. Parece que o adulto humano tem um kit natural que é acionado a nutrir o que é redondo na medida e não na desmedida. Não há mal nenhum nisso. É a própria evolução que se encarrega de selecionar os comportamentos nutritivos a um ser que só sobrevive se for acarinhado.

Também o adulto humano vem preparado para acionar ajuda quando escuta esgares de pânico emitidos por outrem. Ficamos aflitos com a aflição do outro. Empatizamos e se soubermos, e por vezes sem saber, colocamo-nos em risco aquando do socorro a alguém.

Mas…e a ruga? Como o adulto humano observa esta alteração na elasticidade da pele no mundo ocidental? Esconde, tapa, abafa…é feio. Se puder fazê-lo com cosmética, faz. Se puder fazer uma intervenção estética para arredondar, faz. Não há nenhum mal nisso. A minha questão aqui é, se paramos, escutamos, interagimos e observamos deliciadamente o redondo e porque não parar, escutar, interagir e observar deliciadamente a ruga? A ruga vem com o velho. E o velho é uma referência ao tempo…unicamente. Por detrás do velho, está alguém que foi redondo.

Acredito que esta é uma outra admirável capacidade de quem cuida das pessoas mais velhas com dependência. Não desistir da ruga, apesar de não haver traço redondo. Não desistir da ruga, pois é o caminho natural do redondo.