A filha que passou a mãe,... da mãe!

Não é raro escutarmos um filho adulto que vive de perto o processo demencial de um dos seus progenitores, dizer que agora,…parece que passou a ser a mãe ou o pai desse mesmo progenitor!

Não nos é atípico ouvir um cuidador profissional que acompanha pessoas que vivem com demência, dizer que agora,…parece que estes idosos voltaram a ser bebés…

Compreende-se a tendência de inversão de papéis nos quais o geronte em vulnerabilidade dá palco ao desempenho de "filho" ou de "cria" e o adulto filho ou cuidador profissional, dão espaço para o exercício do papel de pais.

Obviamente que esta alteração de papéis decorre de uma intenção positiva de proteger, corrigir, e orientar a pessoa maior que envelhece em cuidados,…mas é um carinho que não vai trazer alívio, conforto, leveza, alegria para nenhum dos lados da relação de cuidar, ao invés, ao longo do tempo, acicatará o peso da vivência das emoções mais desconfortáveis.

Como a relação de cuidar é também uma das moradas mais frequentes da alegria, sensibilizo para esta inclinação e deixo um conjunto de afirmações para a reflexão de todos quantos cuidam de pessoas maiores em vulnerabilidade, nomeadamente aos filhos que cuidam direta ou indiretamente:

“Não deixem de ser filhos!

Assim como aprenderam a vossa língua materna com a vossa mãe (ao fim de 24 horas, um recém-nascido diferencia a língua materna da estrangeira e a voz da mãe ou cuidadora, da voz de outrém);

Mesmo que a mãe ou o pai vivam processos demenciais, deixem-nos ensinar-vos a mostrar os seus mundos, mesmo que dissemelhante dos demais, e cuja língua possa eventualmente ser de desafiante aprendizagem.

Deixem-nos continuar a brindar-vos com o seu legado, embora de uma forma que possam não ter idealizado.

Continuem filhos. Continuem a aprender. Aprendam outra língua!