“Amigos improváveis” na comunicação

Estamos permanentemente imersos em fenómenos comunicantes. É comum às amibas, tudo o que é vida. A todos nós. Até para os que vivem em solidão e isolamento, as batidas do coração, não param de gritar algo, produzindo uma arritmia de fundo que não deixa de ser…comunicar.

Até que ponto nos apaixonamos por este fenómeno e da forma como o experimentamos fazemos magia, já são outros quinhentos.

À magia, não atribuo quaisquer poderes extraordinários, esotéricos, ou galáticos. À magia, relaciono a profundidade do conhecimento que um ser humano pode obter sobre o comportamento de si e dos outros, ao ponto de lhes fazer crer que há um coelho onde não havia, uma carta que passou para um bolso onde não estava, uma verdade que é descoberta não tendo sido dita...enfim...o imenso que podemos alcançar sobre nós e que esse sim, faz a magia acontecer.

Nem todos somos Houdinis, porém, todos temos em potência, pedacitos das suas habilidades!

Num dos programas de capacitação em fenómenos comunicantes em contexto de liderança que facilitei, levantou-se um comentário que me marcou. Tudo me marca enquanto a memória tiver esta capacidade belíssima de lembrar o que interessa e esquecer o que não aporta valor, cansa e castiga.

Este dizer destaco aqui, pois ajuda-me a chegar à meta.

Referia então, como se fosse a sua eureka do dia, que se num tabuleiro de uma conversa delicada, os interlocutores falassem sobre o que silenciam, tudo seria mais fácil.

E como gosto de viver estes momentos!

É nisto que vou focar-me. Nos dois extremos até, os que silenciam e os que falam tudo, sem integrar a indiferença…pois quando esta existe, vocaliza esganiçadamente e no seu melhor, que a comunicação que pretende é a sua antítese, a de não comunicar.

Posta a indiferença de fora, as respostas que não se dão, porque não há tempo, não vi, é muita coisa, nunca consigo, nem não, nem sim, o nim…centremo-nos então nas pontas.

Numa, os perfis que gostam de apresentar a sua identidade com as características da frontalidade, dizer tudo o que vai na alma, mesmo que acicatadas por emoções que alteram a voz e o tom, ao ponto de ensurdecerem quem os tenta ouvir, ou que pela secura da sua abordagem poker face, se empoderam da influencia de desencorajar o outro a dar um seguimento. Não temos de aguentar esta frontalidade. Ela não é expressão de qualquer bandeira de honestidade ou transparência ou outra coisa qualquer associada à bondade apregoada. É expressão do desassossego interior.

Na outra, a expressão do não vale a pena dizer que ninguém me ouve, o receio de que o facto de ser um ser pensante e crítico pode estragar a relação comunicante, abdicando-se da identidade e priorizando a pertença. Quero pertencer mais do que ser! Não é expressão de bondade. É expressão de desassossego interior.

Se não temos de aguentar, valerá sempre, nos desenvolver. Ensinarmo-nos mutuamente, como se fossemos todos, professores do dia a dia.

Falo dos extremos porque são tão evidentes os seus sinais que mais facilmente podemos neles pegar e trabalhá-los em conjunto, concorrendo para a melhoria das interações do próprio com o próprio, do próprio com os demais e dos ambientes recheados de enzimas promotoras de desassossegos. Enzimas que destroem a cadeia de segurança psicológica necessária para os esbater e transformar.

Somos colegas. Não teremos de ser amigos. Mas para sermos Colegas, a comunicação não poderá integrar a amizade improvável dos extremos, a frontalidade de dizer o que e como apetece e a de não dizer e calar, como se o fato de existir, constituir perturbação per si. Desassossegos a conversar com desassossegos. Entropia, ou numa linguagem menos física...energia que não serve para realizar trabalho ou produzir.

Numa época em que se exalta a inteligência, fará sentido estabelecer uma igualdade, Identidade é Inteligência. Nenhum dos extremos revela identidade humana. Demonstra a dor em educar as pulsões emocionais poderosas que espevitam a organização do corpo físico para uma atuação desportiva quem sabe…mas será disto que precisamos nas nossas organizações? Abdicar da identidade tem custos. Falamos de saúde e do prazer no viver. Há um desassossego e inquietação nos quais a comunicação humanizada esgoela-se e reclama em penetrar, apaziguando, apesar de...apesar das incertezas, desafios, urgências, velocidade, superfície, vulnerabilidades. O semear e cultivar  a ataraxia. Nas identidades e nos contextos. O prazer que se sente no trabalho toma requintes de produção e colaboração fáceis de medir e difíceis de desprezar.

E a boa notícia, porque é um princípio pelo qual me rejo, acreditar em nós, naqueles que se acreditam mesmo acreditando não se acreditar, desenvolver a identidade é um processo de desenvolvimento mágico. E se podemos duvidar da forma como a concretizar, de todo duvidar de quem somos e de quem queremos ainda ser.

Uma proposta para buscar na vulnerabilidade sem vitimização, as fontes de probabilizar a comunicação até nos que não a têm visível (ou a re-ver!):