FOMO, Burnout e Comunicação

Lembrei-me de refletir sobre FOMO (Fear Of Missing Out), para chegar a uma necessidade humana universal que constitui um pilar essencial para o nosso desenvolvimento como pessoas. Sem este referencial, é difícil descortinarmos a nossa bússola, termos direção, qualidade na vida de fora e de dentro.

FOMO, (medo de ficar de fora), embora mais associado ao uso desmedido das redes sociais, este fenómeno atual, transborda-as. Inunda-nos para além destas. Propele-nos a sermos boias, mais do que âncoras.

Sinto-me num contínuo dilema entre o bem e o bem. Os piores dilemas.

Vou de férias, com um misto de prazer / desprazer, pois sei que quando regressar tenho o correio repleto para dar vazão…é melhor nas férias ir vendo as coisas do trabalho…não posso perder.

Vou…vou a todas as reuniões que me marcam, nem questiono se a minha participação concorrerá para um diferencial, nem tão pouco reflito sobre a agenda se não me chegar…não posso perder.

Fico em todos os minutos das ditas, mesmo que dê atenção ao que me chega por outras vias, não estando em lado algum a 100%. Permanece a perceção que estive. Os minutos foram, mas estive…sem estar. Não perdi, perdendo.

Estou com notificações de várias fontes, de uma coisa e doutra e daquela, tudo é urgente, tudo me parece demasiadamente importante…não posso perder.

Tenho aquela formação e a outra, vou-me inscrever em todas…não posso perder, quero crescer. Não me sinto com tempo para operacionalizar as aprendizagens desses momentos em que na verdade, só são formação, depois de acabarem, pela consequência que lhes dou na e para a praticidade do dia

Enfim, muito mais coisas não podemos perder e perdoem-me a linguagem hiperbólica, ela só pretende, através do exagero, da divindade e da ubiquidade que almejamos, expressar a forma mais profunda de solidão. Aquela em que me perco de mim. Aquela em que estou para os outros, para as coisas, mas já me custa estar no silêncio da minha própria pessoa. Na concentração profunda. No meu eu criativo, sem copy and paste. No prazer diabólico de ler um livro sem interrupção. Nas novas experiências que poderei viver e partilhar depois do livro fechar...porque não fiquei com frases, fiquei com ideias que me ajudam a transformar algo. Na satisfação de assistir a uma peça de teatro e não querer que esta acabe, parecendo que o tempo é meu. No contentamento de Re-pensar a estratégia de abordagem à minha equipa. Na riqueza de perguntar e escutar os diversos elementos que comigo colaboram sem viver automatismos de responder, reagir, argumentar...!

Na linguagem da relação e do estímulo ao estabelecimento de redes sociais, sejam físicas ou virtuais…onde fica a relação comigo? As Organizações só pelo facto de existirem, já cumprem uma responsabilidade incrível nas nossas sociedades…empregam pessoas, que são famílias, que são filhos (gentes de hoje e do amanhã), que são vizinhos, que são bairros, que são mundo. Propõem a realização de parte das nossas vidas, através do trabalho e da concretização dos talentos, carácter, potencial e competências…agora, como podemos, como organizações, ajudar ainda mais, através das nossas culturas, as pessoas, a serem humanos? Como fomentar o lado bom da pressão social, fomentando o lado único daqueles que a compõem? Não só pela estética do ser humano, mas também porque ao sê-lo, se constitui vantagem competitiva.

Recordo aqui, a título de exemplo, entre tanto que poderia assinalar, a pintura antiga a ovo...uma dificuldade extrema para quem pintava. Grandes obras foram feitas com esta tinta, mas porque o ser humano é por natureza um resolvedor de problemas, à dificuldade da gema que seca rápido, segue-se um óleo...bem mais fácil de pincelar.

As nossas organizações querem acima de tudo, pessoas que resolvam problemas. Qualquer bom profissional, seja qual for a sua área ou maestria, almeja por resolver problemas. Realiza-se na superação. Então, porquê, sentir que o meu humano, já não tem espaço para o fazer? Serei sempre insubstituível, talvez mais dispensável?

Voltemos à comunicação. Como falei em água no início, vamos considerá-la o nosso barco. Fica um pouco instável a sua navegação.

Custa-me o compromisso porque me comprometo com tudo. Não vivo a liberdade que os nãos e os sins me oferecem…porque vivo na prisão do sim, mesmo que depois não consiga atendê-los. Custa-me escolher e dizê-lo porque escolho tudo. Custa-me disciplinar porque abdiquei de uma ordem e estrutura na qual sei que dou o meu melhor. Sou estruturada pelo que me chega de fora, indo a reboque, ficando eu… de fora. Custa-me escutar e preparar porque estou sobrecarregada de tanta informação sem hipótese de a processar. Custa-me rever e repensar o que faço, como faço, porque faço e para que faço, porque à minha beira, estão tantos como eu. Talvez seja então o certo, para quê rever? É mesmo assim.

Todos os que se cruzam com a Métis, conhecem uma das suas especialidades, aquela na qual trabalhamos e acarinhamos também, o desenvolvimento da comunicação humanizada com os nossos mais velhos em situação de vulnerabilidade. Solidão e isolamento pelas mais diversas razões, são uma preocupação em que cursámos há alguns anos e continuamos. Custa muito assistir no final, a vidas que não se sentiram vividas e vívidas.

E por esta razão, a alegria imensa de nos reunirmos com organizações que se preocupam com este tema da humanização e em conjunto, nutrir e concorrer para dar cabo da solidão que abordei nos parágrafos anteriores e que chega a idades que precedem os 65 anos. Prevenindo o Burnout e Boreout. Não querem que as suas pessoas aqui cheguem e nós também não!

Passámos por isto. É fácil compreender. Passamos por qualquer coisa como isto. É fácil aceder. Não passámos nem passamos, é fácil iluminar a empatia.

Sabemos do branco porque existe preto. Conhecemos o mar porque palmilhamos terra. Damos conta da cara porque existe coroa. Sabemos da popa porque existe proa. Sabemos que estamos menos bem, pois há algo que nos diz que podemos ser mais além.

Co-concorrer para que cada barco, cada “podemos ser mais além”, navegue com direção, rumo e sentido é uma das nossas propostas de valor.

Ainda não há medicamento para as Humanopénias*, Humanites* e Humanomas*. A Sociedade do Cansaço** está por aí, o cansaço de não se saber estar na sua própria companhia. Há porém, medidas de prevenção para não se chegar lá com ganhos para todos. Assim, seremos todos resolvedores de problemas, aqueles que encontramos e/ou nos chegam e/ou provocamos. Com redução de custos para todos!

Os nossos Ronaldos, não o são porque estão em tudo e não podem perder nada. São-no porque, escolhem, focam-se, aprendem, Re-aprendem, esforçam-se, aplicam-se, aprofundam-se, melhoram-se, crescem-se, testam-se, competem, cooperam, ensinam ensinando, ensinam sem ensinar, têm períodos de intensidade lancinante, lesionam-se e…sabem e levam a sério, o quando, como e quanto recuperar. Divertem-se em Ser Ronaldos e inspiram-nos, exatamente por isso! 

Termino com a célebre ideia, "Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim"***. Vamos lá "salvar" um lado e o outro!

*Criação para o artigo, de termos "médicos" para uma humanização em deficit | **Sugestão de leitura, do autor Byung-Chul Han  | ***Ortega y Gasset

E porque não o/a queremos cansado/a, partilhamos o storytelling: Professor Pluriversitário num diálogo crítico, empático, inspirado e motivador, com a sua filha de 15 anos (5 min 52 seg)