Haverá ingredientes para uma comunicação com significado?

Ao certo já ouvimos todos na rádio, a locução de uma bula medicamentosa. Digo ouvimos, pois talvez não a consigamos escutar. Percebemos que o fármaco é para a dor e febre e que devemos consultar o nosso médico ou farmacêutico, mas de resto…informação que pode ser importante, fica de fora dos nossos sentidos, não contribuindo para a nossa decisão, um pouco mais racional.

Falamos então de velocidade e ritmo.

Num mundo que não se cala, poderíamos refletir sobre se todos se escutam e se todos falam. Sendo que nos centraríamos num trabalho de contabilidade, também importante, pese embora aqui neste artigo, possamos focar-nos na qualidade da comunicação. E talvez até ir um pouco mais além, criando uma lupa sobre a comunicação que é para cada um de nós, sagrada!

Com sagrado pretendo referir-me à comunicação com significado, aquela que por proporcionar a vivência de sentido, assuntos importantes e relevantes, mesmo que sejam de lazer, nos marca, não se esquece…olhamos para trás e sorrimos ou choramos, mas fica guardada em nós como algo inscrito nas nossas vidas. Não há vazios!

Foi a conversa que tive com o meu chefe e que em nada esperava, me motivasse…foi a conversa que tive com o vizinho que por não ser nos moldes habituais do “está tudo bem consigo?” sem haver o vagar de esperar pela resposta, ou mesmo esperando-a, o outro já estava preparado para dizer: “sim, tudo bem”…foi a conversa com um colaborador que por mais nem quê, influencia o desenvolvimento do seu líder…foi a conversa com a mulher que por não ser intrometida por um smartphone à frente, se conquistou mais um passo numa construção da mini-equipa!

Todas estas interações fazem parte das nossas vidas.

Vamos colocar um outro fator nestas interações, acrescentando a vulnerabilidade evidente de alguém ou alguns. Aquela em que o recrutamento de recursos necessários para satisfação das necessidades de uma pessoa, está parcial ou totalmente beliscado.

Introduzimos assim, o tema do cuidado ao outro. Fator que nos impele a desacelerar, ao contrário, despovoam-se de significado as interações. Desperdiçamos o nosso potencial humano. E lentificar, não significa mais tempo, mais horas, mais ineficiências. Trata-se do relógio mental, aquele que sacraliza as interações e potencia a produtividade ou colaboração que decorre da comunicação entre as partes.

É aquele tempo mental que poupa horas porque aporta qualidade e sentido. Rouba ao fugaz do tempo, a eternidade dos momentos.

Finalizo com uma receita e seus 8 ingredientes, embora não goste de receitas…para a confeção de uma comunicação com significado. Precisamos de:

1.Ter pitadas de distância e proximidade q.b;

2.Colheres de ajuste aos ritmos uns dos outros;

3.Um fio de reflexão sobre o conteúdo que é o foco a ter em conta e atenção;

4.Toneladas de linguagem em comum, seja esta por palavras ou pela sua ausência;

5.Megatoneladas de escuta e atenção para que emerja sentido e consequência;

6.Várias folhas de mentalidade de poder com, erradicando todas as folhagens de poder sobre;

7.Várias chávenas de mentalidade de que o outro é bem mais interessante que eu própria/o e portanto deixa-me lá conhecer esta história;

8.Vontade e iniciativa.

A comunicação é dos valores mais preciosos para uma existência com sentido. E hoje vivemos muito. Não vale a pena, olharmos para trás e vermos que fomos rápidos. Valerá a pena olhar e ver, estive aqui, vivi e contribui para minha vida, no potencial que fui descobrindo, para a dos outros e para o meio em meu redor.

Aproveito para partilhar um desafio de comunicação num formato diferente, que exemplifica o não se precisar de mais tempo, mas do tempo que se tem, recrutar o sentido do encontro. Uma iniciativa que está descrita no próprio canal do Youtube: Poesias da Comunicação.

5/03/2021