Luta por cadeiras nos lares

 

Embora nesta peça não abordemos um dilema, focamo-nos em perguntas que por conterem alguns vieses, ajudam-nos a ficar em dilema!

Há uns tempos, perguntavam-me porque as pessoas mais velhas que vivem agora em lares, ou usufruem das atividades dos centros de dia, discutem tanto quando percebem a sua cadeira ocupada por outrem. A minha proposta é a de observar a formulação da questão numa primeira etapa e depois então, tecer uma nova problemática.

Quanto à formulação da questão, esta é um pouco idadista (mesmo que inconscientemente), convenhamos…ora venham comigo…ela associa o comportamento de defesa intensa do território ganho (cadeiras), às pessoas mais velhas no contexto de cuidados. Se é baseada no pré-conceito, devemos então ir ao conceito.

A defesa da propriedade é comportamento transversal a todas as idades e quando somos infantes, a expressão da propriedade, antecede a da identidade. O meu, é mais antigo que o eu.

Ao longo da vida, vamos lutando por lugares de estacionamento quando desconhecidos se intrometem e nós já esperávamos há uns minutos; numa fila do hipermercado, quando alguém, mesmo que sem querer, se interpõe onde não deve, expressamos um trejeito menos afável,  pois nós, chegamos primeiro!; na nossa bicicleta do ginásio, que por escolhermos aquela e repetirmos o seu uso por quatro vezes e por isso, já é nossa, olhamos de esguelha quem se aproxima dela com a finalidade de a gozar…; na escola, faculdade, quando habitávamos fisicamente as salas de aulas, a nossa carteira à frente ou atrás, mas a nossa…ai!…do colega que mostrasse que ainda não lhe fizemos ver que essa carteira é a nossa…na nossa casa…teremos ou não lugares preferidos à mesa?; nos restaurantes, escolhemos os lugares dos cantos ou os centrais?...enfim…

Se fazemos isto durante toda a vida, porque não o fazer quando somos mais velhos e por vezes, nos encontramos rodeados de um vazio de estímulos que nos facilite o esquecimento do raio da cadeira?

Se a nossa preocupação é gerar um ambiente cooperativo ao invés de competitivo, então a pergunta poderá ser formulada de um outro modo...talvez sem idade, mas com pessoas para além da idade. Será?

Palavras chave: comunicação humanizada, gerontologia, geriatria, institucionalização, idosos, seniores, cuidadores, lideranças, cultura, ambiente, cuidado