O dilema da redoma ou do empurrar com a barriga!

As nossas barrigas podem não ser somente barrigas. Podendo adquirir diversos nomes, como bojo, pança, abdómen, ventre…é na expressão “empurrar com a barriga” que percebemos a funcionalidade extra desta parte do corpo. Adiar. Deixar para amanhã.

Neste conjunto de peças, temos abordado dilemas entre o bem e o bem, como sendo os mais complexos de dirimir na vida de quem se rodeia por pessoas bem-sucedidas…aquelas que envelhecem.

Hoje refletimos convosco sobre um outro bem | bem, o dilema da redoma ou de empurrar com a barriga, referindo-nos ao conjunto de conversas difíceis sobre a nossa existência.

Sabemos que não são conversas sexy pois não se adequam ao contexto em que vivemos pautado pela ditadura da felicidade, numa sociedade atomizada que nos impele a varrer para debaixo do tapete, fenómenos bem presentes nos nossos percursos de vida.

Não são conversas que nos façam rir, embora possam revestir-se de algum humor se delas conseguirmos alguma distância e racionalidade.

Ao imaginarmos alguém que nos é querido e que em determinado momento, não é capaz de tomar decisões por si, o que sabemos nós sobre essa pessoa para podermos tomar decisões por ela. Mesmo não sendo fáceis de tomar, ao menos que sejam alinhadas com a sua vontade expressa, aquando em consciência.

“A minha mãe recusa-se a deixar de conduzir. Como posso impedi-la pois sei que coloca a sua vida em risco e a de outros?”

“O meu tio encontra-se no final da sua vida, estádio muito avançado de demência. Estão a propor-nos alimentação artificial. Ele está muito fraquinho, não interage e custa-nos consentir a alimentação por PEG (gastrostomia endoscópica percutânea). Será que ele se recusaria se pudesse decidir, ou não?”

“A minha irmã já não lida bem com o dinheiro, engana-se e deixa-se enganar. Recusa-se veementemente a deixar que pessoas de confiança e próximas, a ajudem. Que fazer?”

“Não tive outra opção e escolhi um lar para a fase da vida em que o meu pai se encontra…mas fico sempre em dúvida se este seria um desejo dele.”

São uma multitude de dúvidas aquelas que podemos acrescentar às previamente enumeradas, com as quais podemos ser confrontados ao acompanharmos determinadas condições de saúde dos maiores que estão à nossa beira.

Para evitarmos conversas difíceis, criamos uma redoma onde colocamos o elefante, sabemos que ele está lá, mas protegemo-nos da dor que pode decorrer de conversas sobre um futuro em que nos imaginamos sem capacidade de decisão. Protegemos também o outro que já é bem maior e que merece não pensar nestas coisas tristes. Fazemo-lo por bem.

Ao empurrarmos com a barriga estes diálogos, o elefante cresce e por vezes infla tanto que já nem temos hipótese de conversar pois o interessado pode já se encontrar sem capacidade de decidir. Fizemo-lo por bem.

Só que a redoma e o empurrar com a barriga são duas atitudes que nos vão eventualmente impelir, para decisões de dificuldade maior. Decidir sem saber o que o outro quereria. Somamos mais dor à dor.

Não há que adiar. Estas conversas são sobre a vida enquanto é vida. Elas procuram o bem estar de ambos os lados desta relação, embora requeiram a abordagem de temas nada tentadores.

Recordamos um pensamento de Savater, “optar pela filosofia, é renunciar ao direito de guardar significativo silêncio sobre o que nos parece essencial”. Não temos de ser filósofos, mas faz sentido sermos seres que refletem sobre a vida e as vidas que nos acompanham, bem como às suas componentes que não podem e não devem ser caladas.

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Links úteis:

Testamento vital: https://www.sns24.gov.pt/servico/registar-testamento-vital/

Regime do maior acompanhado: https://eportugal.gov.pt/cidadaos/cuidador-informal/regime-do-maior-acompanhado

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Palavras chave: conversas difíceis, diretivas antecipadas de vontade, testamento vital, regime do maior acompanhado,