A excelência na normalidade | Comunicação, feedback e ética

Ética, a Sra. Dona Disciplina que nos ajuda tanto a ser, saber e fazer excecionais...deixando a normal de lado porque nos puxa, empurra e encoraja a viver bem, no bom desvio!

...

 

ComunicAção é um ato de ética por excelência *. Se assim é, ou melhor, se assim o acreditarmos, então o feedback para além de representar uma das mais poderosas formas de desenvolvimento das competências e comportamentos de pessoas, é em si comunicAção e portanto, também um exercício ético.

Viajando ao imaginário. Sou gestor intermédio, como em todas as sandwiches, preocupo-me com a fatia de cima e com a fatia de baixo.

Vivo das mais belas responsabilidades humanas, liderar equipas.

Fazê-las desenvolver-se, reorganizá-las, co-criar ambientes de inter-dependência saudáveis para um mútuo apoio e superAções. Cuido das estratégias que emanam do topo (fatia de cima), sou agente de cultura organizacional e atendo ao que me chega e procuro, da equipa (fatia de baixo) que me reporta. E mais, mas por ora, ficamos por aqui. Resolvemos problemas e trabalhamos para isso!

Nem sempre é fácil este meu papel. Tenho dois elementos com desempenho de excelência numa equipa de doze. Oito que atendem às expetativas definidas. Dois que não exercem ainda em concordância. Invisto tempo e preparação excecionais para implementar momentos de feedback com aqueles que se encontram, em termos de desempenho, nos extremos da barriga gorda da curva normal. Pessoas com desempenhos excecionais. Aos primeiros, para os ajudar a uma maior visibilidade, oportunidades e a outros inspirar. Aos segundos, para facilitar a operação efetiva.

 Acabo por, no meio de tanto para dar atenção, não excecionalizar** o desempenho normal, aquele que no-dia-a-dia é também, uma força motriz riquíssima daquilo que acontece. Digo-lhes que tenho sempre a porta aberta e que se precisarem de mim, estarei lá. Agendo também com eles, dois ou três momentos anuais de feedback de desenvolvimento. Tenho consciência de não utilizar a mesma medida, o mesmo critério. Normalizo o normal. Deveria excecionalizá-lo**.

...

(Assunção que o comportamento e características humanas são de distribuição normal e por esta razão, uma base de instrumentos de gestão de pessoas, nomeadamente, do desempenho. Encerra um potencial de frustração acentuado, conduzindo as organizações a procurar outra base de apoio | Não é o foco desta reflexão).

...

 

Tenho uma outra dificuldade. Aquela que é a de dar feedback negativo. Adoro dar feedback positivo. Esqueço-me, porém, que não há feedback positivo nem negativo. Há sempre a minha intenção positiva em mobilizar desenvolvimentos, cuidando da linguagem que nomeia os comportamentos e que o Departamento de Gestão de Pessoas me faz chegar debruçando-se nas suas descrições e indicadores concretos.

Para quê dizer a um Colaborador "meu" que é muito bom tecnicamente, mas picuinhas e que precisa de ser mais autónomo se poderei analisar com ele, que componentes do trabalho deverão ser alvo do seu maior detalhe e outras, nem tanto? Porque não perguntar-lhe o que o previne de decidir sozinho, em responsabilidades que assim estão assumidas? Deste modo, encontrar espaços de aprendizagens, melhorias, crescimento, expansão, realização…Deveria então excecionalizar** a intenção de desenvolver continuamente com as palavras ajustadas. As palavras podem ser janelas ou paredes.***Deverei escolhê-las.

(Peço por favor ao leitor, que ajuste o exemplo a outro que lhe possa fazer mais sentido. Serve este, unicamente para ilustrar que a linguagem do senso comum nem sempre funciona. Correremos o risco de transformar feedback em afundaback**).

 

Por último, pedir-lhes e deles receber feedback, dos investidos de desempenhos fora da barriga gorda e dos tantos com desempenhos na tal barriga. Excecionalizando** o potencial total do feedback como ferramenta de comunicação que não se restringe ao dar.

Chegando ao fim da viagem imaginária. E porque muito e bem se fala da importância do feedback de desenvolvimento como chave nas organizações sãs e não, unicamente associado ao desempenho, serve este pequeno texto para complementar, aflorando aspetos tangenciais à ética:

- Equidade na excecionalidade do tratamento das pessoas e processos. Mudam-se, ajustam-se e personalizam-se, todavia, os conteúdos a trocar;
- Excecionalidade na intenção de desenvolvimento, para o estímulo continuado da mentalidade de crescimento (em oposição ao fixed mindset);
- Excecionalidade no cuidado com as palavras que descrevem competências e comportamentos a desenvolver, manter, minguar e alinhar...diluindo os possíveis juízos de valor.

Resvalar nestas excecionalidades, lesa a comunicação, o poder incrível do feedback (que se capilariza em versões, dependendo do objetivo, mas seguramente, evitando o feedback sandwich, desatualizado), a mentalidade de crescimento cada vez mais necessária e a ética.

Ética, a Sra. Dona Disciplina que nos ajuda tanto a ser, saber e fazer excecionais...deixando a normal de lado porque nos puxa, empurra e encoraja a viver bem, no bom desvio!
*E. Levinas | **Palavras criadas para este texto que se compreendem no contexto | ***M. Rosenberg